
A RUA PERDIDA
O seguinte relato foi extraído do diário de Marilyn Diniz, o qual foi mantido em segredo até o fim da sua vida. O material foi descoberto pela filha, durante a reforma da casa onde vivera, e enviado a uma revista de assuntos paranormais para que fosse analisado e se tirassem as devidas conclusões.
“Perto do Natal de 2015 viajei para Angra dos Reis, pois já não visitava minha irmã desde a transferência do marido, na empresa onde trabalhava.
O movimento local era intenso. Em algum momento o GPS me direcionou para uma rua que me pareceu diferente, com relação às referências que Marta havia me dado. Mas como eu desconhecia a cidade, não tive muita escolha.
A princípio, o que tinha pela frente era algo comum, num centro urbano e num mês de dezembro: muito tumulto e um trânsito que se arrastava.
À medida que seguia, porém, o trânsito fluiu, fazendo-me pensar que havia uma diversidade de saídas adiante. O que me animou, pois pretendia chegar antes do anoitecer e aliviar a inquietação de transitar sozinha em lugares distantes.
Uma música dos anos 80 soou na FM. O sol tremulava no topo dos edifícios, lançando setas agudas. Tentei ligar para minha irmã, mas só havia chiados na linha. Pus o celular sobre o banco e voltei a me concentrar na rua.
A essa altura a brisa tocava meu rosto de modo agradável, e o calor de dezembro amenizava. O sinal do rádio começou a oscilar durante o boletim de meteorologia. Após ouvir com dificuldade algumas frases difusas, o desliguei e tentei mais uma vez ligar para minha irmã, enquanto observava pelo retrovisor algumas lojas fechadas ficando para trás. A linha estava silenciosa. Coloquei o celular no porta-luvas e o esqueci por ora.
Exceto por um ancião arrastando um saco remendado, alguém balançando uma placa com a frase “O Senhor Te Abandonará”, alguém caminhando aleatoriamente, o movimento diminuía depressa demais para o horário. Reduzi a velocidade, certa de não haver nenhum outro veículo atrás de mim.
O cansaço e a dor de cabeça faziam meus olhos formigarem. Minha última parada havia sido horas antes, e a necessidade de um bom café era imensa. Isso logo mudou quando notei que TODA a rua estava morta... O mais estranho é que parecia estar assim há muito tempo, como se aquele trecho tivesse sido desativado e tornado um cenário desbotado e esquecido… Algo que não se espera encontrar em plena cidade grande. Sorri, pasma. Depois disso, outras reações foram surgindo. Serenidade não estava entre elas.
A luz era como de uma foto de anos atrás e com estranhas variações. Pisquei os olhos com força, mas eles continuaram pregando peças. Os prédios foram ficando cada vez mais envelhecidos, lançando sombras tortas uns sobre os outros… As nuvens espiando sobre eles, com um amarelo doentio…
A sensação de não estar onde devia finalmente se deu, quando vi a primeira janela pregada com ripas, os primeiros postes com pedaços de teia, rachaduras com vegetação crescendo dentre elas... Terrenos baldios esquisitamente curvos, desproporcionais… Tentava dizer a mim mesma para me acalmar. Afinal eu não conhecia a cidade. No entanto, aquelas coisas continuavam passando, num desfile insano; cata-ventos que lembravam símbolos desconhecidos; bifurcações onde os mesmos lugares se insinuavam no limite da visão; um cartaz onde um menininho calvo sorria, com o rosto cheio de queimaduras. Abaixo, em letras arcaicas, li rapidamente a propaganda de um produto chamado “MINAL”
A bateria do celular havia se descarregado completamente. Joguei-o em qualquer lugar e continuei dirigindo, com medo de parar o carro para manobrar. Não sei quanto tempo passei tentando encontrar um rumo que fizesse sentido e tentando encontrar alguém a quem pudesse perguntar algo. Vi uma tabuleta com os dizeres: “NARTHIST LOCALIZAÇÕES” escritos com tinta que lembrava sangue seco. Tentei brevemente definir o que havia de errado naquelas palavras. Mas não importava. Afinal, havia algo profundamente errado em tudo à volta... Aquelas construções obsoletas, seladas com as mesmas ripas, tingidas daquela aura apática, como se guardassem segredos inimagináveis. Cada sombra, cada ângulo esquisito despertando perguntas difíceis de se formular.
Então vi desenhos, como aqueles feitos em rituais… Os traços quase infantis rabiscados sobre um azul remoto… Entre eles estava o de um carro... O meu. Mesmo nos esboços simples, pude me ver ao volante, numa caricatura grosseira. Senti os músculos do meu rosto tremerem e um riso histérico ameaçando vir à garganta. Fechei instintivamente as janelas. Foi quando percebi que meu relógio também havia parado. Exatamente às 14h20. Pela claridade, calculei que devia ser mais do que isso. E as impressões ainda ficaram mais vagas, como se o sol se escondesse por trás de alguma nuvem. O barulho solitário do meu motor continuou, sob aquele céu de pintura surreal…
A ideia de estar ali após o anoitecer de repente me assombrou mais do que os últimos momentos. Era algo iminente, contra o qual não havia argumentos ou subterfúgios… Senti as lágrimas descerem. Uma das minhas mãos segurou involuntariamente o crucifixo, enquanto eu balbuciava entre soluços.
Em algum ponto, uma porta estreita se abriu... Da escuridão a leprosa me fitou com um sorriso sem lábios. Um dos olhos cobertos por uma película branca, o outro expressando uma ânsia vazia. Um relance de osso despontava entre bordas de pele, em sua testa.
A figura estendeu a mão em minha direção. Só que não era uma mão. Era um tentáculo rosado se agitando nervosamente, como se tentasse apanhar alguma coisa no ar.
Isso deve ter acontecido num espaço de poucos segundos, pois eu já estava gritando. Não tive noção do quanto gritei… Um grito maior do que a voz, maior do que a razão, maior do que tudo o que o pensamento pode conter, com o pé afundando no acelerador.
E as luzes de uma avenida pareceram me tirar de um transe. Senti o choque de diversos veículos jogando meu carro de um lado para outro. Vozes agressivas, xingamentos, ficaram ecoando na minha cabeça.
Despertei num quarto de hospital com uma perna e outros ossos do corpo quebrados. O tubo em minha narina queimava como fogo. Minha irmã estava perto, a expressão preocupada sendo substituída pela de ânimo.
— Há quanto tempo estou aqui? — Perguntei debilmente.
— Um dia e meio! — Ela respondeu. E acrescentou: — Você teve sorte! — Minutos depois ela disse que sussurrei coisas enquanto estava sedada.
— Quem ou o quê seria “Narthist”? — Respondi que não sabia, que não me lembrava. As lembranças anteriores eram como as de um sonho, quando acordamos para um dia cheio e logo não pensamos mais. O mundo racional tem esse poder sobre coisas que a mente não está acostumada. Na maioria das vezes.
Ao voltar para minha cidade, quis que fosse de avião. E nunca mais retornei a Angra, nem quando minha irmã teve câncer. Também não consigo mais andar sozinha por qualquer rua. Se não estiver acompanhada, sou tomada por uma sensação de mal estar. Minhas pernas bambeiam e começo a chorar. Às vezes olho para trás, como se isso mantivesse algo em seu devido lugar. Quando vejo a sombra de um prédio, levo a mão à boca, num susto. Fico parada por longo tempo olhando para a calçada. O psiquiatra diagnosticou como “síndrome de pânico.” Desde então, remédios controlados fazem parte do meu dia a dia.
Ainda assim, quando alguém me pergunta sobre o que aconteceu em Angra, abaixo os olhos, constrangida como se tentasse ocultar um escândalo, e respondo de modo quase ingênuo: “Foi um acidente! Feio! Muito feio! Tive muita sorte, sabia? Muita sorte…” E entro num choro descontrolado.
Esses dias, pela manhã, minha filha disse que voltei a falar durante o sono. Perguntei-lhe mais ou menos sobre o que. Antes não o tivesse feito… Ela me fitou com uma expressão grave. E um perceptível e profundo horror no olhar. Me abraçou. Dias depois, meu psiquiatra aumentou a medicação.
Enquanto isso, ficou acertado que não mais sairei de casa nos próximos dias… Ela me abraçou com lágrimas nos olhos. E eu fiquei olhando para a janela acima dos seus ombros, para aquele céu de pintura surreal.”
FIM