No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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O SONO DE JÉSSICA


Uma lápide tombou, entre pendões e cruzes. Duas mãos emergiram como estranhas raízes, tateando o ar. Fosse um simples acaso ou descuido da natureza, Jéssica se levantou. Cabelos sujos sobre os ombros magros, os braços encolhidos junto ao peito, o luar fazia sua silhueta parecer a de uma imagem santa.

Quis falar, mas as cordas vocais já não permitiam. O silêncio era a sua fala agora. Um silêncio de palavras mortas. Olhou as mãos descarnadas e de unhas longas, vermes pequeninos passeando entre os tendões. Outras coisas também ainda viviam nela... Coisas que o tempo não podia deteriorar. “Quanto tempo se passara?” A resposta foi o murmúrio das folhas e o ressoar das aves noturnas. “Quanto tempo se passara desde que roubaram sua casa… sua vida… sua esperança?...” Dessa vez gritou. Mas o som não foi de um grito, e sim algo vago, quase inaudível.


Os passos arrastaram-se monótonos… O vento agitava-lhe os farrapos sujos... Um portão de ferro com a tranca quebrada se entreabria à sua frente. Depois de inúmeras ações dos vândalos, desistiram de fazer reparos, e sua sombra como a de um espantalho fétido ganhou as ruas.


Era a noite de Halloween. Quem a visse seguir com uma órbita vazia, as bochechas comidas por insetos, acharia perfeita a fantasia, apesar de parecer sem rumo. No entanto, ela sabia aonde ir... Onde fora feliz por certo tempo, até um marido canalha e uma secretária ambiciosa acabarem com tudo. O gosto do veneno em sua traqueia seria sempre recente. Ela sabia aonde ir… Sim! À casa que fora sua. À casa que herdara antes de se casar com Jonathan, agora compartilhada com sua confidente.

Era a noite em que tudo podia acontecer. Era também o terceiro aniversário da sua morte. Nunca entendera sobre certos assuntos, mas alguma coisa por certo acontecera, para ela estar ali. Nada que se pudesse explicar, mas sabia que precisava agir rápido.


A determinação brilhava em seu olho. Determinação e alguma coisa mais que a acompanhara desde os últimos minutos de vida... Que fora sepultado com ela, compartilhara com ela a escuridão, e agora também se levantara. Se ela fosse um fantasma, os atormentaria, os levaria à insanidade, mas ela não o era. A ela coube uma condição menos nobre. Mas o que lhe motivava era imenso... Algo que nem um caixão selado, o peso da terra e a sombra de uma estátua, poderiam aquietar. Algo que a impulsionava para longe… Até conseguir distinguir um telhado... Depois uma varanda com janelas acesas.


A casa situava-se num bairro nobre. Boa vizinhança, ótimas manutenções. Quanta ironia agora na situação… 

Ele não perdera o hábito de trancar o portão, só após a meia noite. Antes disso, era sempre costume sair para beber. Algumas vezes a levara para jantar, enquanto teciam planos, embora a ideia de ter filhos jamais fosse incluída.

Ela cruzou o jardim, mantendo certa distância da janela acesa. Havia um vulto por trás das cortinas… Era ele. Ganhara um pouco mais de volume, mas ela reconhecia aqueles gestos, a maneira de acender o cigarro e expelir a fumaça reflexivamente. Então um vulto delicado juntou-se ao dele, beijando-o e puxando-o pela mão.

Subiu os degraus da varanda pausadamente. No tempo dela havia um pastor alemão que ficava por ali durante a noite. Não havia sinal dele ou de qualquer outro cão. Sua mão descarnada se estendeu em direção à maçaneta. Girou-a lentamente. Estava trancada. Novamente sentiu vontade de gritar, mas suas cordas vocais não permitiam qualquer som que se assemelhasse à palavra. Apenas um chiado angustiante.

– Quem está aí? – indagou a voz feminina do lado de dentro. A resposta foi quatro batidas mecânicas. A porta se abriu, e a linda secretária deixou a arma cair, soltando um disparo sem direção. O olho de Jéssica faiscou, enquanto as mãos cadavéricas agarraram a cabeça da mulher, fazendo-a girar num ângulo impossível. O corpo caiu como um fardo. As pernas bem torneadas deram dois solavancos e pararam.

No alto da escada uma porta se fechou. Ela subiu degrau por degrau, a sombra alongando-se nas paredes, até uma porta que ela se lembrava bem... Era ali que ela ia levar seu café, enquanto ele redigia a defesa de um cliente... E era ali que ela quase o surpreendia algumas vezes, em conversas um pouco mais discretas.

Três pancadas fortes… Um barulho furtivo do lado de dentro… – Perdoe-me, Jéssica... Não foi ideia minha, foi ideia da Cindy… Me perdoe, por favor… – Mas aquele "algo mais" que ainda havia nela não tinha paciência para isso. Queria acabar com o que estava inacabado.

Mais uma pancada, e uma ripa de madeira se estalou. Dessa vez não houve lamúria. Apenas um silêncio de longos segundos. Outra pancada. A porta se abriu, e um pesado cinzeiro lhe atingiu o lado esquerdo do crânio. Antes que o segundo golpe se desfechasse, a cabeça dele foi amassada contra a quina do portal. O corpo foi escorregando, deixando um rastro vertical de sangue e massa encefálica. E ali ficou, com os olhos arregalados.


“Para quem ele estaria olhando?”, pensaria um policial no dia seguinte, chupando um pirulito de cereja. Mas as únicas respostas seriam dois corpos e aquele rastro de terra, da porta principal até o escritório…

"... ou seria do escritório até a porta principal?" Cogitaria alguém da equipe de perícia. E o sono de Jéssica prosseguiu em paz.


FIM

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 06/06/2026
Alterado em 16/07/2026


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