
RAINHA DE ESPINHOS
– Obrigado, Sr. Randolf! Tenha um excelente dia! – Disse o entregador, guardando o troco e caminhando de volta ao carro.
– Igualmente! – Disse o velho com um sorriso cansado. Quando o carro se distanciou, fechou o portão e voltou aos afazeres. Gostava do entusiasmo dos jovens. Fazia com que se lembrasse de um tempo em que a simplicidade tornava as pessoas melhores.
Há muitos anos vivia sozinho naquela casa de muros regulares e telhado inclinado, onde o sol parecia demorar mais para se pôr. Também guardava hábitos antigos e um silêncio que falava mais alto do que qualquer voz humana.
Foi ainda muito jovem que aprendera a tocar a terra com respeito. Nunca deixou de acreditar que as coisas mais verdadeiras continuam sendo as mais simples. Bastava ver um botão desabrochar, sentir o perfume suave espalhar‑se pelo ar.
Gostava da companhia tranquila dos canteiros e das pequenas criaturas que vinham visitar o seu espaço. Também as flores o faziam lembrar da infância, inspiravam lares harmoniosos e histórias felizes, além de lhe fazer bem trazer um pouco de natureza para perto de si. Descobriu que simplesmente tinha jeito com elas, como se um tipo de diálogo ocorresse. Bastava um lugar bem distante da agitação urbana. Um lugar cuja aquisição não fora difícil, numa época em que até moedas guardadas em latinhas valiam a pena.
A área fora atingida por um meteorito no final dos anos 40. Bem mais tarde veio a ser loteada e posta à venda. O recorte com a foto ainda estava em seu álbum. Uma foto que ficava melhor em preto e branco. A desolação pairava, e algo vago parecia se insinuar, fazendo lembrar uma antiga e misteriosa xilogravura.
Exceto por um pedaço onde nada crescia, vários fatores dificultavam o acesso e muito teria de ser feito. Tudo isso talvez justificasse o valor simbólico. O resultado, então, era o recanto onde vivia atualmente, e de onde raras vezes saía.
Sendo solteiro e sem filhos, aos 73 anos não necessitava de muito. Seus contatos se baseavam praticamente numa linha telefônica. Cartas eram algo que não recebia mais. A última delas era de agosto de 1988, de uma prima falecida. Gostava de reler as mais antigas, quando a chuva e o vento batiam nas janelas.
Entre as coisas que gostava de manter, também estavam o álbum de fotografias, no qual já não se lembrava de vários rostos; o decrépito fusca, de quando possuía o poder de um volante nas mãos e a arma que pertencera ao pai, um ex-combatente da guerra. Um revólver que ele usava como enfeite de parede.
O jardim e sua variedade de plantas eram a verdadeira continuidade para as reticências da sua vida. Alguns exemplares certamente fariam bonito em qualquer exposição. Mas o propósito mesmo era poder olhá-los toda vez que se perguntasse o porquê de acordar no dia seguinte, como se lhe respondessem.
Algo vinha mudando, no entanto... A princípio, de modo quase imperceptível. Depois seguindo a passos largos para alguma situação com a qual não saberia lidar.
Algo acontecera com um dos espécimes, e não acreditava que fosse por causa dos produtos. Há anos o mantinha num declive que havia na parte dos fundos. Um local que, por sorte, ficava longe das vistas.
A planta vinha consumindo quantidades incomuns de água. E aos poucos vinha apresentando detalhes que deixariam estudiosos realmente intrigados.
Podia ser impressão, mas a flor que parecera a maior rosa já vista vinha se modificando, adquirindo outro aspecto. O vermelho já não era uma coloração vegetal comum. Mas algo que levava a pensar em carne sem pele. Os espinhos, afiados como os de um cacto, eram de um cinza metálico, às vezes variando de momento a momento. A única vez que sua mão roçou num deles, ficou inchada e latejante, as veias escurecendo sob a ação de algum veneno. Após uma série de medicamentos, sentiu melhoras, quando já pensava que sua mão teria de ser amputada. Depois disso, passou a evitar arranhões, mesmo sutis.
Vinha se perguntando se ainda estava com idade para isso. Mas não gostava da vida sedentária. A atividade ainda lhe fazia bem. Quando estava ocioso, não era raro se surpreender em conversas consigo mesmo, chegando mesmo a rir um pouco das próprias piadas. De repente levava as mãos ao rosto e as deixava cair, com os olhos cheios de lágrimas.
Respirou fundo. Olhou por um momento a montanha coberta de nuvens, e foi ao barracão. Olhou a estante improvisada de caixotes com latas, ferramentas e pilhas de jornais velhos. Ao lado, ficavam os sacos de fibra cheios de terra preparada. Apanhou o óleo e saiu.
Após varrer o gramado, reuniu a grama cortada e uma quantidade de folhas. Ateou fogo, vendo a fumaça subir preguiçosamente.
Às 16h50, uma grande sombra cobria o jardim. Retirou-se, ouvindo um galho cair atrás de si.
Na parte dos fundos, seus olhos se arregalaram. A planta, que já media quase a sua altura, mostrava novas diferenças. Talvez sabores como o de besouros, aranhas, lagartixas e outros, explicassem isso. Mas o que tinha à sua frente era simplesmente bizarro... “Como, em nome de Deus, um rato teria ido parar ali?” era a pergunta que ficou presa na sua garganta. Havia também o cheiro sutil de queijo velho. Boa associação, ante a visão do animal, que parecia ter estranhamente ignorado armadilhas que deveriam tê-lo atraído para ali. De repente lhe ocorreu que também não via mais os beija-flores… Não como costumava.
Entrou, sentindo o frescor da casa lhe envolver. As janelas estavam abertas e o vento desalinhara as cortinas. Tirou o chapéu suado e pendurou. Dirigiu-se à cozinha e momentos depois voltou com um copo de leite gelado.
Ligou o rádio, de onde um político discursava sobre medidas ambientais. Abriu uma gaveta e retirou uma embalagem com dois comprimidos. Ingeriu um deles com meio copo de leite. Os últimos raios de sol tocavam as vidraças, e as sombras se alongavam.
Duas noites atrás a novidade não seria um rato. Seria um morcego dos grandes. Sem cabeça. Sem asas. O corpo deteriorado. Antes, um cãozinho perdido entrara pelas grades do portão, atraído pelo cheiro do antigo dono… A noite guardava segredos. Mas o que vira em pleno dia, bastava.
Lá fora o vento espalhou mais folhas. O rádio estava em volume baixo, e o boletim de meteorologia previu outro temporal. Depois, uma música romântica se iniciou, seguida por outras canções.
Enquanto se barbeava, olhava distraidamente seu reflexo. Os olhos tinham uma inocência estranha. Poética, porém sem brilho. Eram os olhos de alguém acostumado a observar o mundo, de longe, sem grandes participações. Em vez disso conversava com as flores, chamando-as pelo nome das pessoas amadas, pessoas distantes, perdidas. E os rostos pareciam dançar à sua volta, como se estivessem presentes... Todos chamando, esperando... Era como se… (Por que pensava nisso?) O relógio soou no primeiro andar, como se o tirasse de um transe.
Após o banho, recolheu a roupa usada. Então a camisa caiu e três coisas minúsculas rolaram do bolso. Vinham sendo encontradas perto do espécime. Algumas meio que grudadas ao chão como se quisessem adentrá-lo. Eram resistentes. A curiosidade o levara a fazer experimentos com martelos, alicates e prensas. Ao mesmo tempo, eram leves… Leves como penugem... Leves o suficiente para serem transportadas pelo vento mais fraco. Foi preciso muito cuidado ao retirá-las de onde estavam, para que nem uma se perdesse. Apanhou-as com uma expressão grave no rosto. Iriam se juntar às outras num recipiente que mantinha bem fechado.
Os cuidados já não estavam sendo suficientes. Não imaginou que mamíferos começassem a se tornar parte do complemento.
Os pensamentos não paravam de circular. De repente se viu rezando para que adoção de filhotes não precisasse entrar na escala… E para que escalas maiores não surgissem, num tenebroso esquema. Ligaria para o Centro de Estudos Botânicos no dia seguinte e cancelaria os documentos!
Uma dor aguda o obrigou a ir se deitar, como não acontecia há algum tempo. Na manhã seguinte o céu estava limpo como numa paisagem de primavera. Fora uns poucos gotejos, nem parecia ter chovido na madrugada.
A conversa ao telefone foi breve. Sem rodeios e sem necessidade de explicações, como se não o tivessem levado a sério desde o primeiro momento.
Dirigiu-se à parte dos fundos, sentindo falta do casal de esquilos que costumava ver em frente à janela e do cocô de gato que vivia encontrando em sua varanda. Ao mesmo tempo, perguntava-se quanto tempo aquilo seria capaz de viver... Há bons anos vinha cultivando-a, encontrando motivação para sua vida cheia de ausências. Talvez a mesma motivação que fazia insetos ignorarem lâmpadas, ratos se interessarem por plantas, e gatos irem um pouco mais longe para fazer as necessidades.
O pensamento “e se aquilo pudesse viver como as sequoias?” surgiu no instante em que ele estacou, deixando o galão cair... Tombou de joelhos, com as mãos ao peito e um fio de saliva no canto da boca. Não por causa da pontada, nem do cheiro do combustível derramado.
A flor semelhante a um pedaço de carne dessa vez se tornara uma pavorosa e tríplice mandíbula com um ferrão curvo se projetando em cada extremidade. A terra havia se estufado, com fissuras que rasgavam o chão em todas as direções. Parte de uma raiz, três metros aproximadamente, estava exposta feito um verme retorcido. A coisa tentava sair…
FIM