No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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MORADORES

Ele já esperava há vários minutos, quase andando de um lado para outro. “Pietro, O Homem do Censo” era como o conheciam. Um sujeito carismático, do tipo “paizão”. Mesmo assim, uma mudança na política administrativa o colocou em outros rumos. E ali estava agora, numa rua estranha de um bairro estranho de uma cidade mais estranha ainda, de pé numa varanda.

Embora o portão estivesse destrancado, a campainha não funcionava e os nós dos dedos estavam doloridos pelos inúmeros contatos com a porta.

Quando pensava em desistir, a mão de um esqueleto girou a chave do lado de dentro e a porta se abriu... Porém, foi uma moça de beleza serena que apareceu, vestindo uma roupa um tanto fora de moda.

– Bom dia! Meu nome é Pietro! Eu sou do Censo! Poderia dar uma palavrinha com os responsáveis?–

– Claro! Só um instante! – Disse ela, deixando a porta entreaberta.

Mais dez minutos se passaram. Tinha um dia cheio pela frente. A prancheta em sua mão foi colocada sob um braço. Depois, sob o outro. Nesse instante prestou mais atenção ao redor. As casas pareciam mais casas de veraneio. Um pássaro cantou em algum ponto. Um carro velho e barulhento passou na entrada distante da rua. Se perguntava se valia a pena perder tempo por ali. Mas deveres são deveres.

Antes de se retirar, empurrou levemente a porta com a ponta dos dedos, espiando melhor o interior. Qualquer coisa, diria apenas “Desculpem-me! Achei que pudessem estar com algum problema!”

Mas não precisou se desculpar por nada. Porque simplesmente não havia ninguém à espera disso. Só paredes vazias. As cortinas, na verdade, eram folhas de papelão selando janelas vagas e ele era uma silhueta solitária no vão da entrada.

Chegou a dar mais dois passos para dentro, comprovando que a casa estava realmente deserta. Sua sombra se projetou, por um instante, num assoalho sem tapete... Deu meia volta, descendo rapidamente os degraus, com um fio de suor gelado escorrendo. O que foi sua sorte. Se tivesse dado mais um passo, a porta teria se fechado e seu destino teria sido desconhecido.

Ao ligar o carro, lançou um último olhar em direção à casa. Já não era mais bonita e colorida, como parecera… A porta estava fechada, não como se tivesse se fechado sozinha, mas como se os momentos anteriores tivessem sido um tipo de ilusão. Não contaria a ninguém sobre aquilo, nem mesmo para seu maior confidente. Esquecer seria melhor. E desapareceu na esquina.

Não era a primeira vez que coisas assim aconteciam. Era um local isolado no final de uma rua sem saída, onde o sol batia menos, e muitos evitavam se aproximar, após ouvirem relatos parecidos. É que os Moradores costumavam estranhar as presenças de fora e nem todos eram sociáveis.

Eles eram os Moradores. Aquele era seu lugar. Três gerações haviam estado ali, até Catherine envenenar os pais, no princípio dos anos 80 e depois se enforcar na grossa viga do sótão. E a casa ficou fechada, sem que nenhum herdeiro fosse localizado.

A velha Abigail também matara a irmã em 1974; o solitário Gregory suicidara-se no porão três anos antes; a pobre Jennifer morrera após um parto anormal... Muitas coisas tinham acontecido por trás daqueles muros. Coisas boas e também coisas que seriam melhor se fossem esquecidas, mas apenas ficaram no silêncio. Um dia eles despertaram... E consideraram uma vez mais seus laços. E ficaram todos juntos novamente.

Eles eram os Moradores. Compartilhavam lembranças, alegrias, tristezas, segredos que somente cômodos vazios guardavam. Afinal, o passado era tudo o que tinham agora.

Só os homens de uniforme eram bem vindos. Eles vinham com suas chaves, suas ferramentas para verificar de tempos em tempos o local. Às vezes um pente, um brinquedo antigo, uma moeda dos anos 20 eram encontrados. Eles os recolhiam e os deixavam em qualquer lugar. Um pouco curiosos, às vezes, mas muito prestativos. Não deixavam que o casarão e suas memórias se deteriorassem.

Foi assim que, no outono de 2000, o estranho chegou. Entrou acompanhado de dois outros. Olhou tudo de modo avaliativo. Quando disse: “Parece uma morada de fantasmas!” o ar se deslocou, as janelas tremeram. Um dos acompanhantes sentiu um arrepio. Era uma afronta! Eles não eram fantasmas! Eles eram os Moradores! Aquele era o seu lugar! Quem seria aquele homem?

Então o estranho cruzou a sala. Arrancou as folhas de papelão e a luz inundou todo o primeiro andar. Algo pareceu recuar, se encolher. – Nada como um pouco de luz! Até as paredes agradecem!– Gracejou.

– Durante esses anos procuramos manter o lugar em dia, dentro do possível – disse um dos representantes da imobiliária. – Mas o senhor poderá arrumar tudo a seu gosto. Aqui está o cartão de uma empresa que recomendamos! –

– Obrigado! – disse o estranho, apanhando o cartão. – Será só o tempo de me acostumar! Tudo ainda me parece novo!

– Compreendemos!– Disse o outro, de modo cordial. O estranho continuou olhando ao redor, os passos fazendo ruídos no assoalho. Eles pareciam minúsculos na casa vazia, como se os ângulos se inclinassem para olhá-los.

– E lá em cima? – indagou o estranho, diante da escada.

– É onde ficam os quartos. E também sótão, mais um andar acima. A sua família é grande?–

– Não muito! Minha esposa morreu num acidente! Não chegamos a ter filhos!

– Lamento! – disse o outro.

Subiram a escada. A mesma onde Vitória caiu em 1961, dando seus últimos espasmos no primeiro degrau. Minutos depois um banho de luz varreu também o segundo andar. Dessa vez julgou ouvir um coro de murmúrios.

Ele era diferente… Não era como o garoto que pulou o muro, atrás da pipa, e o menino Tommy foi até ele, devolver. O vendedor que entrou na frente de um carro

ao ver Jennifer na varanda com o bebê. O estranho traria máquinas. Traria mudanças. Apagaria os mínimos vínculos que ainda tinham com a vida.

Não demorou para que uma empresa fosse contactada e uma equipe enviada. Mas no início da reforma houve coisas e a empresa retirou seus homens, dizendo para que ele aguardasse passar a “crise administrativa”.

Um dos pintores caiu da escada e sofreu fraturas graves. Vitória suspirou. Ia dizer "posso ajudá-lo, senhor?" Mas sempre se esquecia de ajeitar a cabeça sobre o pescoço quebrado.

Um eletricista sofreu um infarto no porão. Seus olhos parados ficaram olhando para um canto. O repelente de insetos que Gregory usava nas roupas não funcionava mais.

O carpinteiro resolveu se balançar na viga para esquecer um pouco os problemas da vida. Após alguns minutos falando consigo mesmo, retirou o boné e, em seguida, utilizou a extensão da furadeira como corda.

Só depois que o antenista se atirou do telhado, abraçado com a Bíblia, percebeu-se que houve “acidentes demais” na reforma. E a mesma ficou inacabada por quase um mês.

O estranho adentrou a casa, arrastando uma mochila e outros equipamentos. – Eu mesmo vou tornar este lugar digno de se morar! – Disse, rasgando os cartões de todas as empresas que havia contactado.

Trabalhou dia e noite em completa solidão. A sensação opressiva quase o fazia parar. Apesar disso, assobiava uma canção country que o fazia descontrair nas piores situações. Algumas vezes dava aqueles gritinhos típicos dos shows de rodeio.

O cheiro de tinta preenchia os espaços. Ao final de duas semanas, ao menos as paredes e o chão estavam em ordem o suficiente para que viessem as mobílias. A varanda estava em condições de receber visitas saudáveis, e um sorvedouro para beija-flores pendia na entrada.

Havia ares de inovação em todos os cantos. Molduras de paisagens e cowboys cavalgando diante de horizontes decoravam a maioria das paredes. Era um gosto pessoal.

Os Moradores começaram a ficar perdidos… Tudo estava mudado. Ele não era como o idiota da prancheta ou o mendigo que fugiu, quando Sarah deixou o olho canceroso cair. Ele sabia que a mudança os faria parecer… Invasores…

Um quadro com o Salmo 91 foi erguido acima da lareira. Suportes de incenso foram espalhados por toda a casa.

Novos tremores sacudiram as janelas. Ventos frios faziam com que as cortinas novas voassem. No último andar, a porta do sótão batia repetidamente. Agora o reconheciam... Ele era fruto de uma loucura de Roby em 1976. Seu nome era Jones, e o sangue em suas veias era uma doença para a família… Era o herdeiro distante… Ele era… “Um de nós!”

O som fez todas as janelas vibrarem ao mesmo tempo. No último andar, o sótão estalou em sequência, não como madeira cedendo, mas como um registro sendo reaberto após décadas de arquivamento.

Lá fora, as árvores oscilaram em movimentos loucos. E outra atmosfera tomou conta de tudo. O ambiente ganhou ares de casa nova. Tudo silenciou, exceto pelo assobio de Jones na varanda, tirando as luvas e esfregando as mãos no macacão. – É... Mãos à obra! -

FIM

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 07/06/2026
Alterado em 30/06/2026


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