No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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BABUSKA

Após perder o emprego e, nos meses seguintes, perder tudo com jogos, Jhonson se viu naquela situação que todos costumam chamar de “um barco sem remos.”
Primeiro caminhou a esmo por dias, tentando encontrar um sentido para as reticências da sua vida. Quatro ou cinco vezes conseguiu a atenção de alguém. E as moedas que juntou foram a conta de um café e um pão com manteiga consumidos avidamente, enquanto o homem do balcão mantinha um olho nos afazeres e o outro na sua roupa já com aspecto de quem adormeceu olhando estrelas.

Dormira num banco atrás de uma igreja, ouvindo um mendigo lhe pregar a Bíblia, com passagens do Livro de Jó. Na outra noite, depois de horas caminhando, dormira num pequeno coreto lendo frases como “eu amo Sabrina” e “me ajudem a encontrar meu pinto para que eu possa mijar”.
Conseguira trabalho por apenas um dia, como lavador de louças. E ali mesmo, parte do dinheiro fora gasta numa refeição. Outra parte deixara nas mãos de um mendigo, antes de dormir umas três noites em “seu quarto” – um cômodo do tamanho de um banheiro que teimava em permanecer de pé no meio de paredes demolidas e mato.

Finalmente, já com os sapatos furados, roupas ensebadas de suor, cabelos e barba grandes, a esperança surgiu diante dele, na forma de uma grande cara de palhaço abrindo uma bocarra, que era a entrada de um lugar chamado Giuseppe Diversões.
Perambulou bom tempo entre uma multidão alegre, o cheiro de pipoca e molho de cachorro quente lhe torturando os sentidos. 

A época era de movimento intenso. Logo, não foi difícil chegar até aquele italiano com ares de almofadinha, cabelos úmidos, escovados, e colete cor de vinho.
A primeira reação de Giuseppe foi tampar as narinas entre o polegar e o indicador quando aquele infeliz entrou em seu escritório, um cubículo sem janelas, mas com ar-condicionado, ao lado de um grande galpão de tábuas cheirando a serragem.
–  Entendo  sua  história  –  disse  Giuseppe. Tinha uma voz anasalada e um jeito de falar com os dentes trincados. O sotaque era tão carregado que só poderia mesmo ser alguém de longe. – Já lidei com muitos casos como o seu. Portanto, vou lhe dar uma chance, mas sem gracinhas, capiche? – Após perguntas de praxe, ele concluiu:
– Terás direito a três refeições diárias. Mas dinheiro, só no final do mês – a última frase foi dita de olhos baixos e testa franzida, taciturnamente. – Pode lavar-se no banheiro de empregados e até dormir em algum lugar por aqui, se quiser. Mas amanhã às 6h30min eu o quero em pé. Isto aqui vai ficar uma imundície de ponta a ponta!
Na manhã seguinte já tomara o desjejum, com uma pesada vassoura de gravetos do lado. Vestia um uniforme cáqui. Nas costas, as palavras “Giuseppe Diversões” estavam escritas em letras vermelhas, de desenho animado. O uniforme parecia enorme em seu corpo e fazia o calor duplicar.

Durante todo o tempo, sentia olhares vigilantes observando-o. O calor de dezembro fritava, e a vassoura de gravetos se movia com dificuldade sobre o imenso chão de pedrinhas.
Sentia uma solidão que jamais pensara sentir, vendo papéis de bala, tampinhas de garrafas, guardanapos sujos e sombras indiferentes dos passantes.
Toda aquela cafonice de balões, músicas circenses, algodão-doce, bandeirolas, guirlandas coloridas contra fundos azuis, o fez lembrar uma foto dos anos 70, quando ele era criança. Mas essa lembrança agora nada tinha de nostálgica.

Havia uma grande e colorida cara de palhaço alguns metros adiante, como na entrada principal. Entrou por aquela boca aberta, indo sair em outra parte do parque. Ali uma aglomeração de pessoas isolava os estandes de tiro ao alvo e os quiosques de sorvete. As filas davam voltas em direção a um carrossel com os personagens da Disney e em direção ao Trenzinho Mágico, que parecia ser um dos mais novos brinquedos. Havia um palco onde um palhaço de verdade contava anedotas, dava cambalhotas no ar e lançava pirulitos a todos.

Mais adiante, quando as primeiras bolhas começaram a surgir na parte mais carnosa dos dedos, viu uma cabeça gigante de coringa, com a mesma bocarra sorridente. Cruzou-a, dando num playground. Aquela parte possuía certo contraste com o resto, como se fosse mais antiga e também a parte mais esquecida do parque. A sujeira era menor, levando em conta que o movimento também o era. Havia apenas duas gangorras e três balanços. Poucas crianças correndo umas atrás das outras, enquanto as mães liam revistas ou conversavam nos bancos ao redor dos arbustos.
Para além do playground, uma área deserta se estendia, talvez aguardando futuros projetos. A área era limitada por um conjunto de divisórias com grades, tão coloridas quanto o resto do parque. E por vegetações que demarcavam a beirada de um rio.
As divisórias cercavam algo que parecia ser um depósito de peças descartadas. Algumas tão deterioradas que era impossível distinguir a cor. Com certeza não seriam reaproveitadas. Ali estava uma xícara do Chapeleiro Louco do tamanho de uma bacia, um cavalo de madeira apodrecido, um tobogã coberto de ferrugem... Tudo mergulhado entre pendões altos, destinado a desaparecer entre eles. Suspirou, tirando o boné e enxugando o suor da testa.

Algo lhe chamou a atenção, no momento que virava as costas. Estava sob uma sombra mais longe. Um cubo de madeira, com detalhes em metal aparafusados. As guirlandas e o fundo vermelho estavam quase apagados. No topo havia uma redoma imitando vidro, bastante suja. Dentro dela o rosto era de uma beleza que seria ridículo chamar de estonteante, se tratando de uma boneca, porém incomum para um simples padrão de fábrica. O tom rosado nas faces parecia pele, os lábios pareciam carne. E os olhos tinham um brilho vivo entre os cílios. Longos cabelos negros caíam sobre os ombros do busto. A gola rendada era retocada por um falso rubi. Um chapéu cônico cheio de estrelas douradas parecia preso ao alto da cabeça.
Mais abaixo, Jhonson viu uma fresta para moedas e um botão vermelho, emborrachado. Uma curiosidade mórbida fez com que ele tirasse uma das últimas moedas que trazia no bolso do uniforme e a introduzisse na caixa. Nada aconteceu, como devia esperar. – Idiota! – disse para si mesmo. E foi se retirando devagar, levando a sua sombra atrás de si.

Depois de alguns passos, um vago ranger de engrenagens fez com que ele olhasse para trás. Os olhos da boneca estavam acesos com uma luz rubra. A luz parecia estranha naquela hora do dia, e fazia os olhos dela parecerem grandes e transparentes.
“Olá! Eu sou Babuska, a Bruxa… Faça um pedido e aperte o botão! E seja sensato…” Era uma voz mecânica, baixa e monótona. Mas carregada de uma feminilidade que fazia lembrar aquelas vozes que ouvimos no interior dos aviões. A certa distância, as crianças continuavam distraídas no playground, bem como as mães sentadas nos bancos distraídas. A música do parque parecia vir de muito longe. E as palavras chegaram com nitidez aos seus ouvidos.
Jhonson tocou o botão vermelho, emborrachado, ao lado do orifício onde tinha introduzido a moeda. E pensou, com desdém:
– Gostaria que chovesse um pouco, não é? O calor está matando! – e apertou o botão, ouvindo o ranger de engrenagens velhas. O barulho de um sininho finalizou a operação. Logo, os olhos da boneca se apagaram. E tudo ficou como antes. Sorriu, balançando a cabeça e voltou ao trabalho.
O primeiro pingo de chuva lhe viria a cair sobre a aba do boné ao despejar os baldes de lixo do lado oposto. Pouco depois a chuva desceria, primeiro de maneira vaga, depois mais intensa.
Jhonson estendia as mãos sujas colhendo as gotas delicadas que vinham do céu claro. O vendedor de pipocas o olhava como se ele fosse começar a dançar a qualquer momento. Mas ele apenas expressava um sorriso pasmo e olhava na direção das cabeças gigantes dos palhaços ao leste.

No outro dia, Simão, um sujeito careca, musculoso e com um grande bigode de morsa o chamou para lhe mostrar onde poderia lavar suas roupas. O sabão, bem como as refeições diárias, seria descontado em sua folha.
– Mas que italiano filho da puta! – pensou. E assim, passou a fazer apenas uma refeição diária, focando-se no almoço mesmo a comida tendo gosto de papel molhado e com tiras gordurosas como mistura.

Na tarde de domingo o movimento diminuiu o suficiente para se dar ao luxo de empurrar um pouco com a barriga. O pequeno fluxo de frequentadores continuava a cruzar para lá e para cá, como se ele fosse invisível. Em algum momento uma criança passou mal e despejou uma grossa poça de vômito numa das cadeiras do Trenzinho Mágico. Voltou com água, desinfetante e um pano de limpeza. O brutamontes Simão jogava dominó com mais dois outros brutamontes, no galpão ao lado do escritório. Depois de recolher o último lixo, levou a mão ao bolso à procura do farrapo que usava para enxugar suor. Tocou uma moeda de cinquenta centavos, que agora era o último dinheiro que guardava. Acarinhou-a por um breve momento e voltou a se concentrar no trabalho.

Mais uma sexta-feira… As bolhas em suas mãos agora eram calosidades que pouco incomodavam. Num dado momento, Simão o interceptara atrás do estande, enquanto recolhia uma quantidade considerável de sujeira, como se os locais apropriados fossem os mais vergonhosos de se usar.
– Que está fazendo aí? Aproveitando o dia? – antes que Jhonson respondesse, o outro acrescentou: – Algum porcalhão descarregou até os intestinos em nosso vaso sanitário! Dê uma mão lá!
Era incrível o modo como já se sentia parte daquilo, a ponto de limitar-se a olhar Giuseppe de modo estúpido, quando ele passava, e acatar as palavras:
– Por que você não nos entregou a caixa de lenços que encontrou no caramanchão? Acha que o empreguei como xepeiro? Já está registrado em sua folha! –

A história dos lenços era algo que pensava mais. Um novo pensamento o rondava, afinal: ele era um homem perdido, e aquelas pessoas mostravam ser perfeitamente capazes de lhe armar qualquer coisa. 

Só na tarde seguinte, retirou do bolso aquela tira de pano a fim de aliviar com ela a irritação nos olhos, e ao retirá-la, a moeda de 50 centavos saltou e caiu aos seus pés, reluzindo. Sorriu, ignorando o olhar enviesado do vendedor de pipocas.

Depois de recolher o lixo, foi caminhando em direção às cabeças gigantes com bocarras abertas. Ao adentrá-las, uma solidão maior pareceu envolvê-lo. Poucos depois, o playground foi surgindo como uma miragem. Vazio, agora. O vento soprava os arbustos fazendo-os balançar. Seguiu, ouvindo seus passos esmagarem pedrinhas. Enfim, estava diante daqueles brinquedos velhos de novo. Havia alguns pendões a mais, após a chuva. Pequenas poças ainda reluziam sob as peças. O silêncio fazia o murmúrio do rio chegar como uma sensação de paz.
A esquisita máquina estava no mesmo lugar, como só poderia estar. A redoma parecia consideravelmente mais limpa e algumas tiras da velha pintura pendiam. A luz crepuscular dava ao busto uma beleza melancólica e sombria.
– Aí está você! – sua voz soou como uma folha seca na paisagem. Introduziu aquela última moeda na pequena fenda metálica. Segundos depois ouviu as engrenagens rangerem dolorosas. E os olhos do busto se acenderam com um rubor mais nítido àquela hora do dia.
“Olá! Eu sou Babuska, a Bruxa… Faça um pedido e aperte o botão! E seja sensato…” Havia uma clareza maior também, naquela voz. Talvez fosse pelo silêncio do horário. E ele pensou:
“Gostaria de conseguir um bom dinheiro! O suficiente para cair fora daqui sem precisar me preocupar com os próximos dias!” Depois de uma pausa, acrescentou: “O mais rápido possível!” E apertou o botão vermelho, emborrachado. Um zumbido vago… Após o barulho de um sininho, os olhos da boneca se apagaram. Suspirou, olhando ao redor. Depois saiu, brincando com a vassoura.
Perto de um arbusto, seus pés pisaram em algo, sentindo a coisa se afundar entre as pedrinhas. Era uma carteira. Inchada. Polpuda. Recheada de notas. – PUUUUUUUUUUUUUUUUUUUTA QUE… – a frase se perdeu, enquanto ele olhava para trás. Depois para todos os lados, levando a mão à boca.
Retirou todo o dinheiro da carteira e escondeu dentro dos sapatos. Não havia documentos dentro da carteira. Nada que identificasse o dono. De repente viu Simão chamando-o de longe. Largou a carteira vazia no mesmo lugar em que a encontrara e apressou-se.

Ele não cairia fora naquela mesma noite como havia planejado mais cedo. Mas também não poderia ficar mais muito tempo. Se fosse pego com aquele dinheiro ou levantasse alguma suspeita, estaria em maus lençóis, mesmo não havendo exatamente provas de que o tinha roubado. Se uma caixa de lenços lhe custara uma bronca e um desconto no pagamento, imagine o que ele guardava agora…
Continuaria comendo o pão que o diabo amassou. Só até concluir seus planos. Sim, ele tinha planos. Planos grandes. E adormeceu pensando nisso.

O  dia seguinte foi como os outros. A limpeza começou na parte principal. Depois seguiu para a parte secundária. Quando acabou de varrer o playground, retornava. Muitas vezes nem chegara a terminar, e já era chamado de volta aos gritos. 

No fim, o segredo estava nas últimas limpezas. Claro que não era apenas por ser um local mais remoto! Havia aquela parte mais esquecida ainda, onde uma familiaridade já o ligava a ela.
Posteriormente pensaria no episódio ali ocorrido. Num dado momento, caminharia até o limite do parque, com a ansiedade fazendo seus passos parecerem desajeitados. Mais uma vez estaria diante da velha máquina, vendo sua imagem refletida naquelas retinas atrás da redoma.
Rindo feito criança, introduziria na caixa a moeda que encontrara perto do carrossel. Dessa vez, uma de dez centavos. E aguardaria aquele som que passara a amar. Depois desejaria que aquele pessoal se esquecesse dele por uns três dias. Claro que esses três dias não seriam de folga remunerada. Mas àquela altura não fazia diferença. Apertaria o botão na caixa e ouviria o zumbido. Depois o barulho do sininho, com os olhos da boneca se apagando.
Na tarde seguinte, um acidente na roda gigante faria com que o parque ficasse fechado, enquanto Giuseppe, com seu advogado, prestaria depoimentos sobre as manutenções. A moça ficaria paraplégica. Não teria pedido isso, mas Giuseppe que se preocupasse.


No outro dia estaria longe, com uma caminhonete alugada e sua única bagagem na carroceria, embalada numa caixa de papelão improvisada. Em algum momento um policial o interceptaria para verificação de documentos. Como a história de “estar fazendo uma entrega” não colaria, o policial pediria para que Jhonson o acompanhasse. Nesse momento Jhonson se lançaria para dentro da caminhonete, saindo em disparada por entre outros veículos. Entraria por uma rua movimentada e seria apanhado por um caminhão em alta velocidade. 


– Que merda, Giuseppe!! – Gritou a voz no telefone. O grito era carregado do mesmo sotaque, porém a voz era de uma pessoa idosa. – O que você está fazendo na administração dos nossos negócios? – Giuseppe ouvia, enquanto destroçava um clipe de papel entre os dedos. E a voz continuou. – Desse jeito vai acabar nos levando a nada!! – 

– Perfeitamente, papi! – a voz de Giuseppe estava trêmula, apesar do rosto impassível. Após quase uma hora de gritaria do outro lado da linha, a voz finalizou com: – E seja mais cuidadoso com quem você emprega!! – e desligou na cara de Giuseppe.

Ao colocar o telefone no gancho, Giuseppe se deparou com Simão debruçado ao lado da sua mesa, olhando-o pensativo.
– O que foi? Se for mais problemas, deixe para outra hora. Estou com a cabeça quente o suficiente!
– Não, não… Só uma coisa que me passou pela cabeça…
– Então diga, porra!
– Bem… É sobre o rapaz que abandonou o serviço. Tem  alguma  coisa  esquisita… 

– Sim – Giuseppe mantinha a testa franzida enquanto rabiscava algo numa folha.
– Para um cara que só fazia uma refeição por dia... Que se matava, na espera do final do mês… Como ele conseguiu alugar uma caminhonete?
– Esses vagabundos trazem sempre um coelho na cartola. A partir de hoje muita coisa por aqui mudará – disse Giuseppe, ainda folheando papéis. A última frase pareceu ser dita mais para ele mesmo do que para o outro. Mais alguns segundos de silêncio, Simão arriscou outra vez: – E isso não é o pior… – A postura lhe dava um ar estúpido para o seu tamanho imenso. – Há peças caras por aqui! Até importadas! O que teria afinal o levado a roubar uma das peças do lixo? O que teria feito ele se interessar por aquele equipamento a ponto de querer roubá-lo? – Finalizou como num desabafo.
Giuseppe apanhou mais uma vez o telefone. – Olha… Eu tenho coisas muito piores para me preocupar! Portanto… – Simão se retirou envergonhado com as suposições idiotas. Se ele tivesse surpreendido Jhonson em algum momento, teria perguntado também como ele teria feito aquela peça funcionar sem tomadas ou outra fonte de energia. Mas esse segredo agora estava enterrado com Jhonson. 

O que se sabia era que durante anos o brinquedo fora usado no máximo duas vezes, por muitas crianças o acharem “assustador” e principalmente por ninguém entender o idioma. Considerada um investimento inútil, a peça foi descartada, o prejuízo abafado e todos proibidos de tocar no assunto. 

Lá fora um vento forte soprava o parque vazio. E tudo permaneceu em silêncio.

                                                                              Fim

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 10/06/2026
Alterado em 16/07/2026


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