
PÉTALAS E LUAR
Ela se preparou para receber o Visitante. Livrou-se de tudo que maculasse o ambiente. Objetos, livros santos, mesmo enfeites de parede. Eram partes da vida que esquecera.
Sua sombra desenhava a beleza virginal do corpo nu... Era o décimo oitavo aniversário dela. Uma data em solidão. Mas tudo o que importava era a presença sublime… O príncipe mágico também jovem, belo, de olhar quase ingênuo, a capa esvoaçando com a brisa noturna… A mão estendida, numa promessa idílica… Assim como no sonho, aquele sonho vago… A janela, o convite, os passos silenciosos, o perfume de alguém de muito tempo atrás…
Ela se preparou como num rito antigo. Pôs flores no quarto, retirou o espelho, preservou o silêncio. Pois ele voltaria. Voltaria por ela como um velho conhecido, alguém a despontar num horizonte azul…
Amarrou as cortinas, perfumou-se... E na noite irreal, ele a tomou… Sugou... Um doce sorriso nos lábios dela… As mãos afrouxando-se… Os braços inertes… A lua na janela ainda luzindo plena… Assim ela quisera, assim sonhara. Tudo num estado total, de paz.
– Pare, é a polícia! – alguém gritou à porta. Os estampidos soaram, e uma coisa horrenda voou janela afora.
– Jesus… Viu aquilo? – indagou o policial chamado Jones, o rosto branco igual ao corpo sobre a cama.
– Creio que acertei seja lá o que for! – Disse o outro, mexendo no interruptor. – A lâmpada está queimada! –
O facho da lanterna varreu desnecessariamente o quarto. A luz da lua punha um brilho intenso e fantasmático em tudo. Não havia enfeites. Não havia quase nada. O cômodo parecia excessivamente espaçoso.
O cadáver fitava o teto, com um sorriso vago, os braços abertos como se abraçasse a eternidade.
– Meu Deus, olhe a garganta dela… – Disse Jones. O outro contornou o leito e cobriu a boca, com enjoo.
– Nós dois vimos o que vimos, certo?– A respiração pesava. Cerrou os olhos da morta e afastou algumas flores. Tão secas que pareciam estar ali há muito tempo. Depois cobriram o corpo com o lençol.
A denúncia fora feita horas antes. A família não era vista havia mais de dois dias, como se a casa tivesse sido abandonada com todas as janelas e portas abertas. Havia mais coisas a serem investigadas do que parecia.
– Vamos sair, por enquanto! Há algo de ruim aqui, e não me refiro só ao cadáver…–
– Também sinto! –
Já descendo a escada, um dos dois indagou sobre o que teria acontecido com o sangue.
– Eu ia perguntar como alguém pode morrer daquela maneira, sorrindo! – As vozes se distanciaram. E tudo voltou a ser como um sonho, no quarto cheio de pétalas e luar.