No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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A REUNIÃO


– Todo ano a mesma coisa! – resmungou Damian. Do lado de fora das janelas o trânsito parecia um murmúrio vago. Uma brisa agradável soprava as cortinas da sala. Era a época na qual a cidade começava a se colorir, e os planos mais doces surgiam na mente dos apaixonados. Longas viagens eram planejadas pelas famílias vizinhas e um peso parecia ser tirado dos ombros dos estudantes. No entanto, uma sensação de solidão parecia envolvê-los, algo com que Minerva aprendera a conviver há bons anos. Damian também aprenderia com o tempo.
– Você sabe que é preciso, meu bem! – Disse. Era uma mulher de 38 anos, mas que parecia mal chegar aos 30. – É por você e por mim! – a voz tinha um tom calmo, cristalino, mas os olhos não ocultavam certo pesar.
– Até quando terá de ser assim? Cada vez que volto parece pior! – Damian dirigiu-se ao quarto, como se tentasse ocultar a expressão infeliz. Era um menino solitário e acabava de completar treze anos. Era tranquilo. Não tinha problemas no colégio, suas notas eram aceitáveis, seu tempo vago era preenchido com programas de TV, leituras e pequenos passeios. Ele e a mãe viviam de maneira saudável, como se um complementasse o outro, em especial nessa época, que parecia fragilizá-los. No fundo também sabia que não adiantava essas discussões. Era o seu destino. Mantinha a esperança de que um dia tudo mudasse. Mas o que tinha a fazer, por enquanto, era dançar conforme a música. Afinal era apenas um dia no ano.
– Meu bem é preciso! Você sabe disso! – As últimas palavras foram quase que em tom de súplica. E acrescentou: – Se rompermos o trato, a desgraça cairá sobre nós! – Damian nunca entendera o que ela queria dizer. A frase o fazia lembrar-se do conto de fadas onde a carruagem voltaria a ser uma abóbora quando chegasse a meia-noite. Mas aquilo não era um conto de fadas. Quem dera se fosse! E as palavras soavam como algo que ele preferia não se aprofundar muito. A descoberta poderia não melhorar em nada o seu estado de ânimo.
– Acredite meu filho, é preciso... Por nós! Um caminhão dos grandes passou pela rua no lado de fora, deixando um barulho semelhante a um trovão. As janelas tremeram. Mesmo assim as palavras pareceram alfinetar Damian a ponto de ele quase pular. Então se voltou para a mãe, de modo quase solene, e a abraçou. – Está bem, mãe, pela senhora.
O motorista chegou por volta das 15h10. O veículo era facilmente distinguível entre os outros. Tratava-se de um modelo 1925 num estado de conservação impressionante, com as partes cromadas brilhando ao sol da tarde, a cor vermelha parecendo quase cegar os olhos de tão intensa. O homem sob o capô, porém, era um sujeito de rosto inexpressivo, branco como cera. Sua pele parecia não suar. Não buzinou uma vez sequer. Apenas parou diante do portão e permaneceu olhando adiante, como se não visse a casa ao seu lado. O menino se despediu da mãe e saiu com a boca seca.
Quando o carro se distanciou, Minerva já se encontrava no portão com a mesma secura na boca, olhando aquela placa na traseira do Ford, totalmente sem numeração. Em vez disso, havia uma caveira sobre dois ossos cruzados, como vemos nos frascos de veneno. Aquele carro deveria chamar bastante atenção, em especial em cidades pequenas como aquela. No entanto… O pensamento se perdeu para dar lugar a outro: – Até quando, meu Deus, até quando? –

Quase uma hora depois, Damian permanecia sentado no assento de trás, olhando a cidade passar como uma imagem fantasma pelos vidros foscos. Nem uma só palavra era trocada entre ele e o estranho motorista. O interior do carro era confortável, porém totalmente negro, e cheirava a fluído de isqueiro velho.
De repente, estavam numa estrada deserta. A paisagem que via pela janela agora era como uma paisagem de interior. Só não conseguia entender aquele atalho que o motorista tomava. Era um atalho aberto, sem portões nem avisos, mas ao mesmo tempo alguma coisa ali causava uma sensação de “acesso único". Bem como aquele caminho em espiral que conduzia ao alto da colina. Lembrava algo saído das fantasias. Também o fazia pensar naqueles sinais que só podem ser vistos do alto. Havia lido sobre eles na revista “Mistérios do Mundo”.
A casa no topo era de estilo moderno, sem nada de extraordinário; os portões imersos entre uma fraca vegetação onde se via algumas flores naquela época do ano. O motorista, porém, não passava daquele ponto. As únicas palavras que Damian ouvia após todo o trajeto eram: – Pronto! Daqui você já pode ir sozinho! –
Era exatamente esse traço de normalidade que fazia Damian confiar e até gostar um pouco do sujeito que ia deixando atrás de si. Nunca se perguntara qual era a relação dele com aquela gente. A única vez que esbarrara no assunto ouvira algo parecido com “Negócios que você não pode entender!”


Ao subir os degraus da varanda, Tia Lorna era sempre a primeira que o abraçava. Seu rosto era liso e tinha uma expressão alegre, mas quando ela beijava a bochecha de Damian, havia uma sensação desconfortável como se seu rosto tocasse escamas… Ou dentes. E lá estava Tia Samanta junto com mais dois convidados. Tia Morgana era a mais velha das três e não gostava de sair ao sol. Permanecia no interior da casa, em sua poltrona, constantemente com uma manta sobre os ombros. Tia Samanta apenas lhe piscava um olho e soprava-lhe um beijo, de longe. A taça de vinho em sua mão estava sempre pela metade e a bebida era de um vermelho mais vivo do que vinho. Então era conduzido até a poltrona onde estava Tia Morgana. Tia Morgana permanecia sentada olhando-o de um jeito suave. Não podia sair daquela cadeira havia muito tempo e os olhos dela eram sempre fundos, com as córneas amareladas. Quando sorria o seu rosto parecia uma máscara rosada.
O interior da casa, assim como o lado de fora, não trazia nada de extraordinário. Melhor dizendo, quase nada. Entre as coisas que chamavam a atenção de Damian, estavam o lustre enorme e a vitrola antiga, porém com um toque de beleza, de onde uma velha ópera soava num disco de 78 rotações.
Entre outros detalhes, também estava uma moldura acima da lareira, onde um rapaz com seus 25 anos sorria, vestindo uma toga negra. A foto era tão velha que as bordas estavam porejadas e escurecidas, o rosto do rapaz quase indistinguível. Nunca lhe falaram sobre ele, nem Damian se sentia à vontade o suficiente para perguntar. Mas imaginava ser aquele um dos seus bisavôs, ou algum ancestral mais distante. Na parede oposta havia uma tela com cores que pareciam quase brilhar. Também não tinha data, mas parecia de um tempo imemorial. Era uma condessa. Posava numa postura que esbanjava requinte. Um sorriso tão… tão nítido, que fazia a respiração de Damian parar, cada vez que ele olhava naquela direção. Ao mesmo tempo, trazia alguma coisa vaga, como se o pintor tivesse omitido algo perturbador.

A certa altura, estavam todos na sala e Damian ouvia tia Lorna conversar com os dois convidados. Entre uma conversa e outra Damian ouvia: – Nosso rapazinho não está crescendo a olhos vistos? – A frase vinha da Tia Lorna, e os dois convidados concordavam, olhando-o com amabilidade.
Damian notara que um deles falava com sotaque estrangeiro. Na visita anterior, Damian soubera que eram dois primos distantes.

As conversas se prolongavam de modo tranquilo, enquanto duas empregadas de ar sombrio arrumavam uma mesa redonda no centro da sala. Tia Morgana fazia-lhe perguntas indulgentes, como as pessoas idosas costumam fazer às crianças. Damian sentia certo calafrio, com aqueles olhos amarelos fixos nele. Uma das empregadas se aproximou com uma bandeja contendo uma xícara de chá. Nesse exato momento, o relógio tipo carrilhão soou dezoito tenebrosas badaladas e Damian não viu a pinça de caranguejo que era a mão de Tia Morgana sair de sob a manta e segurar a alça da xícara. Tia Morgana não era muito boa com os velhos rituais de etiqueta. Damian, contudo, já estava se acostumando com certas estranhezas daquela família que também era sua. Naquela altura, Tia Samanta o chamara para sentar-se perto dela na outra poltrona.

Tia Lorna agora encontrava-se em outro ponto da sala, ainda a conversar com o casal de convidados, dizendo coisas e apontando para Tia Samanta, que respondia com um sorriso. Damian ouvia algo sobre “Política de Sociedades Secretas nos Tempos Atuais” e sobre “O Eclipse Lunar Mais Longo”.
– Judith traga algo para o nosso sobrinho! Coitado, já deve estar com fome! – disse Tia Samanta, sorrindo para Damian. O sorriso de Tia Samanta sempre o encabulou. Não era apenas o fato dela ter o sorriso mais belo da festa, mas também por trazer algo difuso e não muito diferente do sorriso da condessa na tela.
– Como estão as coisas com você, rapazinho? – indagou Tia Samanta.
– Comigo tudo bem, tia! – respondeu, ainda encabulado, acrescentando algumas pequenas novidades. Da outra poltrona, Tia Morgana o olhava com aquela mesma indulgência de uma avó olhando o neto.
E a reunião continuou, tentando evocar os velhos moldes tradicionais. Todos se vestindo no estilo sóbrio, a despeito das pequenas “gafes” de Tia Morgana, em sua poltrona.
Do outro ponto da sala, Tia Lorna piscou-lhe um olho, voltando a conversar com os dois primos de sotaque escandinavo. Dessa vez Damian notou que a luz não projetava suas sombras na parede, e virou o rosto em direção ao relógio. Eram 19h35. Faltava pouco para a hora do jantar, mas ele estava sem apetite, como de outras vezes.
De repente, como se despertasse de um transe, Damian deparou-se novamente com Tia Samanta sentada diante dele. O fato de que ela parecia não estar ali um segundo antes, era uma das coisas com as quais já se acostumara. Dessa vez ela não sorria. Mas aquela “maquiagem” glamorosa ainda fazia com que ela se parecesse com a figura do quadro na parede.
– Sabe rapaz, espero que um dia você se acostume com tudo isso! – A voz era quase um sussurro, e trazia uma esquisita ponta de ansiedade. – Se você escolher o mesmo destino que seu pai, nós não teremos mais ninguém que leve adiante a nossa linhagem! – Damian pigarreou, num gesto afirmativo. Agora mantinha os olhos baixos, não no rosto de Tia Samanta. Tinha a sensação de que ela o estava agradecendo por isso.
– Gostamos da sua mãe, e ela tem contribuído muito para os nossos encontros. Nossos agradáveis encontros! – As últimas palavras pareceram terminar num riso baixo, trêmulo. Damian sentiu um ar gelado em sua nuca. Conteve o impulso de se atirar por uma das grandes janelas e disparar montanha abaixo.
– Mas sabemos que você também é diferente! – Dessa vez era a elegante Tia Samanta com seu perfume importado e seu jeito agradável, novamente. – Você é como seu pai! Esperamos que não aja como ele em seu próximo ciclo! – Damian achou que “próximo ciclo” pudesse significar maioridade. – Do contrário, meu menino… Será o fim de todos nós! -
Não estava entendendo uma só palavra do que ela dizia. Acreditou ser mais um “lapso esquisito” da tia. Mas Tia Samanta permanecia em sua compostura plena.
– Um dia você vai entender melhor! Você ainda está sob a luz mais límpida! – Samanta ajeitava os cabelos enquanto falava. Um pensamento doido passou pela cabeça de Damian, sobre quantos corações aquela mulher podia ter destruído, em sua melhor forma. – Mas apesar de tudo você sabe que essa é a nossa data especial, e que só na próxima data estaremos aqui! Afinal, você é o único elo que temos com… Isso! – Concluiu, fazendo um gesto abrangente. Outras badaladas soaram do carrilhão.

Então o jantar estava posto. Tia Lorna e os convidados se encaminhavam em direção à mesa e Damian notou como ela se parecia com Tia Samanta em alguns pontos. Semelhanças que não poderiam jamais negar o parentesco. Os convidados vinham atrás dela, e Damian só pôde vê-los de relance. Tia Samanta dirigiu-se à mesa levando Damian com uma mão sobre o seu ombro. Tia Morgana permanecia em sua cadeira com uma das mãos oculta sob a manta, olhando todos como uma velha rainha em seu trono.
E o mesmo ritual de todo ano se repetiu. Todos cercavam a mesa redonda e coberta de iguarias. Davam as mãos e fechavam os olhos. Nesse momento Damian sentia suas mãos frágeis se conectarem desconfortavelmente a um círculo de pinças, garras e patas peludas, enquanto ouvia uma litania que era uma derivação do Livro Secreto de Baal. Depois abria os olhos e a frágil luz de normalidade voltava. Todos se abraçavam num clima comum de confraternização. Lá fora a lua prateada se incidia sobre o jardim. Podia-se ver várias corujas pousadas num galho morto, fitando o interior da janela, com olhos que pareciam quase zombar.

Era a hora do jantar. Uma diversidade de frios, saladas e outros acompanhamentos cercavam uma bandeja coberta com uma tampa. Quando uma das empregadas a retirou, a sensação de enjoo dominou Damian como uma correnteza cinzenta. Um cartaz que ele havia visto num poste: “Criança Desaparecida desde a tarde anterior…” pairou por um instante em sua mente, antes que ela se anuviasse e ele se sentisse mergulhando em águas mornas.
“Eu avisei que ele ainda não estava pronto!”, ouviu a voz distante da Tia Morgana. Mas a voz, dessa vez, estava um pouco diferente. “Vocês estragaram esse garoto igual aconteceu com o pai!”, “Não tem problema!” disse uma voz gutural. Parecia soar mais dentro da sua cabeça do que em seus ouvidos. “Ele é jovem ainda! Devagar vai aceitando as coisas como são!”. “É melhor a gente levá-lo!” disse outra voz que Damian também não soube identificar. Parecia um som arrastado. E tudo se apagou.

O cheiro de fluido de isqueiro velho foi a primeira coisa que Damian sentiu, antes de se recobrar totalmente. Isso lhe trazia sempre uma sensação acolhedora.
Estava no assento traseiro do Ford, as janelas de ambos os lados agora abertas, e um aroma silvestre se misturava ao cheiro do carro. O motorista, silencioso e taciturno como sempre, dirigia em velocidade regular como quando vieram. O pensamento sobre que relação aquele homem podia ter com aquela família despontou novamente em sua cabeça, logo desaparecendo como fumaça soprada.
Que horas deviam ser? Perdera a noção. Estavam adentrando a cidade agora. As imagens que Damian via passar pelas janelas não pareciam mais imagens fantasmas, mas a sensação de enjoo não havia melhorado quase nada. Logo estavam próximos à sua rua. Já se podia ver algumas casas conhecidas.
Sua mãe lhe esperava no portão. Mal o carro estacionou, correu em direção à porta do carona, praticamente arrancando o filho lá de dentro. E o abraçou forte. Quando se recompuseram, o Ford vermelho modelo 1925 com a esquisita caveira na placa, já não estava mais ali.

Às 21h Damian ainda estaria apático. Um comportamento comum, sempre que ele voltava para casa naquela data. Mas o dia seguinte seria diferente. Seria como se tivesse acordado de um sonho ruim. A escola estava em férias e ele despertaria como se o dia anterior fosse uma página arrancada.
Minerva, porém, não conseguiria dormir. Um turbilhão de lembranças lhe invadiriam os pensamentos. Algo típico também, naquela data. 

Fora há treze anos. Depois nunca mais o vira. E um pacto inimaginável estava selado para o resto da sua vida.
Pela madrugada, se levantou e foi ao quarto do filho. Damian dormia profundamente. Ao retornar, abriu a janela e ficou contemplando a lua, com tristeza.

Fim

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 12/06/2026
Alterado em 09/07/2026


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