No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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O DESEJO DE CARINE

Logo pela manhã, Carine colocou na caçamba dois enormes sacos plásticos, com “extremo” cuidado para que nenhum dos dois se entornasse. Depois voltou, acanhada com os passantes. 

O jardim era dividido por uma trilha que ligava o portão à varanda. Uma chuva havia caído na noite anterior, e agora o vento balançava os ramos cheios de gotículas. 

Por um momento, algo reluziu de algum ponto, e fez com que ela caminhasse naquela direção. Afastou a vegetação úmida, os dedos roçando aquele objeto que aos seus olhos parecia a mais estranha moeda já vista. Deslizou o polegar sobre o metal frio, vendo aqueles desenhos engraçados cintilarem como se retribuíssem o gesto. Nem lhe ocorreu indagar se aquilo estava ali antes. Talvez fossem apenas coisas da circunstância. Olhou para o céu, agora com poucas nuvens, e a visão lhe trouxe um breve conforto.

- Carineeeeeeeeeee... - A voz foi ouvida com limpidez aguda. – Você pôs a geladeira para descongelar? Estou falando com você desde ontem!! – Rapidamente colocou o objeto no bolso do avental e adentrou a casa, que em outros tempos pudera chamar de lar até sua mãe verdadeira morrer e o pai se casar novamente, antes de perdê-lo também.

- O que há com você, menina? Parece que vive em outro mundo! - Disse Vitória, a madrasta. Às vezes achava que um dia poderia ter um corpo como o dela. Mas não gostava daquele sorriso. Nunca gostara. Nem quando a velha babá dizia-lhe acarinhando os cabelos: “Procure obedecer a ela, minha filha! Ela veio para que você não ficasse sozinha e para que seu pai não ficasse triste!” (Mas por que o olhar dela parecia dizer algo diferente?)

- Desculpe... - Disse Carine, retirando um pequeno pedaço da unha, deixando um pontinho vermelho. – É que eu achei que precisasse molhar as plantas. – Concluiu, com os olhos baixos, fitando os próprios pés nos chinelos gastos.

- Pois ponha a geladeira pra descongelar! Agora! Depois regue as plantas! Sabe como sua irmã é ocupada com as coisas dela! Tem dias que quase não a vemos! - Falou, fitando-a com aqueles olhos azuis de cílios longos. Olhos que jamais a olhariam como os olhos da mãe, como os olhos do pai, ou mesmo da velha babá.

- Depois retire as roupas da sua irmã do varal e leve para a passadeira! Deixe-as prontas, antes dela voltar! – Disse, passando de uma mão para a outra aquele estojo de maquiagem com detalhes em ouro, o qual parecia andar com ela o tempo todo, como se a necessidade de se maquiar fosse igual à de respirar. Seu pai, outrora, dera à sua mãe um estojo como aquele. Assim pensara... De repente já não era surpresa observar que o estojo na verdade era o mesmo, desde que Loren, fitando-a pelo espelho da penteadeira, lhe contara com expressão soberba. Então o pensamento estalou em sua mente. Tão claro como sinos numa manhã: 

“Gostaria que a Loren não voltasse nunca mais!” 

Era algo que havia desejado muitas vezes. Cada vez que Loren saía, pisando o chão que ela encerava, com suas botas. Certa vez chegara mesmo a desejar coisa pior, quando Loren esticara o pé no momento em que ela passava da cozinha para o banheiro, com o balde, fazendo com que ela caísse espalhando água e lascasse um dente.

A geladeira levaria horas para degelar. Enquanto regava as plantas, ouvia a madrasta ao telefone estalando uma na outra as unhas bem cuidadas. Não dava para vê-la, de onde estava, mas sabia que ela estava sentada na poltrona nova, com o celular no ouvido, cruzando um joelho sobre o outro, sensualmente. Era um hábito comum quando falava com as amigas.

Ao terminar com as plantas, foi até o pequeno tanque atrás da casa, um local onde o sol batia apenas na parte da manhã.

“... Então eu disse ao meu cabeleireiro...” A voz estava distante, agora. À esquerda, uma senhora que ela nunca soube o nome, entrou pelo seu portão, seguindo até sua porta, deixando-a bater atrás de si, taciturnamente. 

Como necessitava de água gelada... Mas o dente lascado fazia seus olhos lacrimejarem. Pensava mais uma vez na meia-irmã. Jamais seria como ela… Loren era alta, cheia de curvas, cabelos brilhantes e roupas bonitas. Carine tinha o corpo esquálido, o peso abaixo do normal, cabelos maltratados, constantemente amarrados com um elástico velho, feições pálidas e sem brilho, acima do pescoço fino... E um sorriso triste, que agora evitava exibir como se doesse mais do que água gelada. Em pouco tempo aquelas pessoas destruiriam o que restava de beleza nela.

“... E porque você não demite essa estúpida?” A conversa lá dentro prosseguia. Acreditava ser a mesma pessoa, do outro lado da linha.

Uma atmosfera leve pairava no local onde estava. Certa delicadeza, certa doçura, parecia envolver tudo. Era onde conseguia encontrar ainda um pouco da mãe, desde que ela, seu pai, a velha babá Sra. Emily e todos os seus sonhos se foram.

De repente ouviu uma risada estridente. “... E eu disse a ela... Já era pra você ter chutado esse idiota sem ambição!” E uma nova onda de assuntos se deu.

Partiu para a próxima tarefa, antes que a conversa se encerrasse, com seu nome sendo chamado e com novas perguntas espezinhadoras.

No lado oposto ficava o quarto de Loren. Carine o olhava pela janela. Arrumado do jeito que ela gostava. Os móveis novos, o urso de pelúcia sobre os lençóis cor de rosa. E era naquela parte do jardim que Loren gostava de brincar quando menor. Parecia que aquelas flores refletiam sua personalidade, nas cores alegres.

Ao entrar, cuidou para que fosse em absoluto silêncio. Ainda trazia a dolorida marca do beliscão, desde a última vez em que deixara a vassoura cair quando a madrasta estava ao telefone. E aquele sorriso era muito pior do que qualquer explosão de raiva.  Quando tio Isaac, um velho irmão de sua mãe, vinha de longe para vê-la, era aquele sorriso que lhe dizia tudo o que ela precisava entender, antes que o tio chegasse. Estava completando quinze anos. E quando o tio ligara pela manhã, Loren depositou secamente o telefone na mesa e ele ali ficou, até que Carine o atendesse.

“Gostaria que ela não voltasse nunca mais...” O pensamento agora era algo pulsante. Por pouco não deixou a marca do ferro sobre aquele vestido.

- Mas você AINDA está passando essa roupa??- 

Quase deu um pulo, ouvindo a voz atrás de si. Tinha se desligado da conversa ao telefone, sem perceber aquela aproximação felina. De repente lhe ocorreu que podia estar sendo observada há bons minutos.

- Desculpe... Não estava me sentindo bem. – Teve de se esforçar para não deixar transparecer a voz embargada. De costas, não era muito difícil.

 - Quantas vezes tenho de lhe dizer para pôr os pés na terra? – Era uma das frases prediletas dela. Como se tivesse sido feita especialmente para Carine.

Carine se virou. A postura servil só permitia que visse a madrasta, do busto para baixo. Mesmo assim sentiu o perigo daquele sorriso enorme. Se sonhasse com ela alguma noite, haveria uma compreensível simbologia na visão de um busto com uma sombra acima do pescoço.

- Eu... Não estava me sentindo bem... - A frase se perdeu num rubor que lhe invadia as faces. A respiração acima, era como se Carine estivesse prestes a ser incinerada viva. De repente uma luz brilhou em seu íntimo. O fato dela “AINDA” não ter terminado com as roupas significava também que já era para Loren estar de volta, querendo sua toalha de banho, seus chinelos e seu roupão. Vitória tirou os olhos da enteada e pousou-os sobre o relógio em seu pulso. Depois lançou outro olhar a Carine. com algo se dilatando nas retinas, como se tivesse lido seus pensamentos. Deu-lhe as costas, deixando um rastro de perfume caro, e foi ao telefone. Carine voltou à tarefa, o coração agora desacelerando. Uma brisa fresca com cheiro de flores agitou as cortinas diante dela, permitindo uma visão das montanhas ao longe...

- Como? Ela já saiu? Não é possível! Tem que estar por aí em algum lugar! Bando de incompetentes! – A discussão seguiu por mais alguns minutos, naquela voz que mal saía  do meio tom.

Pegou-se novamente pensando em fadas madrinhas e estrelas cadentes… A essa altura a madrasta já havia revirado seu quarto e se dirigia à garagem com a chave do carro numa das mãos. Ao sair, retornou três passos, de forma repentina, astuta.

- Quero tudo em ordem quando voltarmos! E não se esqueça de dar uma olhada no meu quarto! Espero não pegar aquele CD velho no meu aparelho outra vez! – Era um CD do Johnny Mathis, uma das raras coisas pertencentes à mãe de Carine.

Mantinha-o guardado num lugar secreto em seu armário, desde que pegara Loren com ele na mão, às gargalhadas. 

- Está me ouvindo menina? – Perguntou Vitória, na porta. A pergunta soou vaga. Mas Carine convivera com aquela mulher por tempo suficiente para saber que o “vago” podia significar o ponto máximo.

“Gostaria que você também nunca mais voltasse...” A frase, dessa vez, era um raio rasgando um céu negro, assombroso…

- Sim... Pode deixar. – Respondeu sem olhar em direção à voz. E ouviu a porta bater, com a chave girando do lado de fora. Esfregou uma na outra as mãos maltratadas. Um reflexo que volta e meia se manifestava, desde o dia em que a Srª Emily desapareceu no portão, lançando-lhe um último beijo.

Ao arrumar o quarto, parecia mais uma invasora ali do que em qualquer lugar da casa. Como se cada peça nos cabides imitasse a postura dominadora daquela que as vestia. Ao passar pela cama, ajeitou cada ruga nos lençóis e saiu sem olhar para trás.

 

20h30

Sua sombra se alongou nas paredes, quando ela foi até o guarda louças. Retirou dois pratos, colocou-os emborcados sobre a mesa com apenas duas cadeiras. Uma em cada ponta. Depois juntou a cada um deles um jogo de talheres, sentindo um calor suave e um formigamento quase imperceptível no bolso do avental. Às 22h15 retirou-os. Totalmente intactos. 

Na manhã seguinte a casa permaneceu em silêncio... E esse silêncio parecia compartilhar com ela uma alegria de velhos amigos. Postou-se diante do espelho, olhando sua imagem fragilizada. Foi girando vagarosamente, os olhos tentando olhar tudo à volta ao mesmo tempo... Sem notar que moeda já não formigava mais no bolso do avental, e agora parecia fria como um objeto comum.

Após colocar no aparelho o velho CD do Johnny Mathis, a canção Evie encheu o ambiente. Então se sentou diante da janela aberta, o rosto pousado entre as mãos ásperas. Lá fora uma garoa fina descia. E suspirou.


FIM

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 13/06/2026
Alterado em 09/07/2026


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