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THANATUS
– Muito bem… – O professor fez uma pausa antes de continuar. – Vocês que estão ingressando agora no terceiro ano, considerem a aula de hoje um privilégio do qual as turmas anteriores não usufruíram. Apresento-lhes… Thanatus! –
Dita a última palavra, os dois ajudantes retiraram a tampa do sarcófago. Houve um silêncio enquanto os trinta pares de olhos foram contemplando, primeiro os pés… Depois as pernas… As mãos... Por fim o tronco e a cabeça de uma múmia que, sem dúvida, havia sido um sujeito imenso.
– Sei que não parece grande novidade para alguns, mas quero que saibam que esta é uma aquisição que nunca havíamos tido em nosso acervo! – No fundo da sala, alguém sussurrou algo sobre “um forte cheiro de canela”. E não era mentira, apesar das janelas abertas. O professor prosseguiu, ignorando o comentário
– Segundo as traduções, Thanatus foi um rei muito cruel e a simples menção do seu nome inspirava temor até mesmo entre os nômades. Fazia com que acendessem piras com ramos sagrados, elevando longas preces ao Sol. – A voz do professor ecoava na sala silenciosa. – Quando sua crueldade e barbarismo chegaram ao ápice, uma rebelião maciça aconteceu. E Thanatus foi banido para as regiões remotas, onde a sede, a fome e o sol puseram fim aos seus dias! –
Miry, a aluna mais jovem da classe, observou por um instante o rosto da múmia com a enorme cavidade no lugar do nariz, um vestígio de pálpebras cinzentas e dentes amarelos espiando através das tiras apodrecidas. Então desviou os olhos.
– Há quem diga que ele morreu amaldiçoando o Egito e negando a todos os deuses da sua terra! Mas isso não foi confirmado por todos os tradutores. Creio que ainda haja muito a se pesquisar! – Mais uma pausa para ver se alguém tinha algo a dizer, e prosseguiu: – Na verdade, a descoberta da tumba se deu apenas devido a um abalo sísmico ocorrido há poucos anos, conforme vocês verificarão nos recortes do mural. Fator que evidentemente poupou trabalho aos arqueólogos e também aos escavadores! –
A palestra prosseguiu até faltar pouco para o encerramento. Mal o ano começara e um longo feriado se aproximava. O professor olhou seu relógio. Suspirou e continuou: – Por motivos ignorados, o museu nos doou esta preciosidade que vocês analisarão com calma! O vaso contendo os órgãos vitais infelizmente se perdeu! – Voltou à sua mesa recolhendo papéis e colocando-os dentro de uma pasta.
Os alunos foram saindo, num arrastar de cadeiras, falando sobre livros e trabalhos que não iam ser moleza. Alguns se aproximaram do professor para esclarecer dúvidas. Outros passaram diante da múmia inclinada em seu cavalete, dando uma breve olhada e seguindo
rapidamente em direção à porta.
Não havia dúvidas sobre Thanatus ter sido tema de sérias discussões entre tradutores e demais especialistas. E de grandes polêmicas com autoridades.
Tão logo a descoberta se deu, procedimentos poucos formais ocorreram devido a uma recusa de envolvimento do governo. Na verdade, a única participação do governo nesse assunto foi a dinamitação da tumba com tudo que havia em seu interior. E os principais jornais noticiaram o absurdo cometido contra o patrimônio.
Numa entrevista concedida a um jornal do Cairo, um alto representante respondeu às perguntas de maneira evasiva. Porém uma resposta por demais estranha encerrou o assunto: “A História não precisa disso!”
Na noite seguinte, o velho Joshua, um dos vigias da universidade, levou uma garrafa na mochila. Afinal, era véspera do seu sexagésimo quarto aniversário e a aposentadoria já estava à vista. Que mal poderia haver numa pequena comemoração? Após os procedimentos de sempre, abriria a garrafa, faria um brinde a si mesmo e beberia um caprichado gole.
Estava acostumado à solidão e não sabia quantas vezes já havia pernoitado aqueles andares, ouvindo seus passos ecoarem atrás de si. No princípio angustiava, mas nunca tivera problemas. O trabalho praticamente consistia em verificações simples.
Entrou no Salão de Ciências, preferindo usar a lanterna em vez de acender as luzes, um hábito comum que adquirira com o tempo. Ali estavam o velho crânio do Homem de Neandertal, uma tapeçaria confeccionada pelos maias, um vaso de cerâmica chinês, uma machadinha de pedra e muitas outras coisas. Só que dessa vez havia algo novo.
Cruzou a sala e parou diante do sarcófago quase um metro mais alto que ele. Um cheiro sutil de flores chegava-lhe às narinas. – O que você tá olhando? – Disse. Ao voltar-se, espalmou a parte de trás do pescoço, como que matando algum inseto. Lançou mais um olhar curioso naquela direção e voltou aos corredores.
O silêncio reinava, exceto pelo zumbido constante das lâmpadas. O calor escaldava e a única refrigeração que havia, acabara de deixar atrás de si. Temiam moscas e possíveis proliferações de bactérias. Logo, cabia a ele também tais averiguações, já que os geradores estavam bastante velhos.
O depósito lá embaixo era o segundo lugar mais fresco no prédio. Ficava abaixo do nível térreo. Era onde ficavam os produtos de limpeza, coisas de manutenção e também seus pertences, incluindo um colchonete, um travesseiro improvisado, algumas
revistas de sacanagem e uma televisão portátil que mal funcionava, mas ajudava nas noites longas.
À 1h20 da manhã, as câmeras filmavam novamente sua figura miúda passando de um lado para outro. Por mais que o fizesse, tinha sempre a impressão de esquecer algo. Uma sala, um corredor, um canto qualquer. O lugar era enorme, e parecia maior ainda à noite. No fim não fazia muita diferença. Tudo era parte do ofício.
Entrou pela segunda vez no Salão. Correu os olhos pelas peças, retirou a machadinha dos ganchos e brincou com ela, fazendo movimentos de luta. A essa altura, boa quantidade da bebida já estava em seu corpo e o peso da machadinha quase o fez perder o equilíbrio. Então a pôs no lugar e caminhou em direção à porta. Parou por um instante como se tivesse sido tomado por alguma sensação. E o vulto do sarcófago mais uma vez ganhou foco. Se ele
estivesse mais lúcido aquilo o manteria longe. Fosse pelo tamanho, fosse pela estranheza, fosse por esconder algo que fazia lembrar filmes de terror. Mas o álcool mexia com suas emoções.
– Pare de olhar para mim! – Disse, a voz soando monótona. Depois, não satisfeito, cambaleou alguns passos para trás e levou a mão à virilha. – Aqui pra você,
ó! – A luz da lanterna dançava, fazendo sombras se moverem. Lá fora um relâmpago brilhou, seguido de um estrondo. Isso fez com que a urina quase lhe escapasse. E se retirou.
As pernas pesavam feito chumbo. Era incrível como as escadas pareciam mais longas quando ele retornava. A vertigem fazia com que ele não tirasse as mãos das paredes enquanto descia os degraus.
– Cristo! Acho que abusei… -
E as câmeras iam acompanhando de maneira vaga seu movimento… Mal desaparecia no ângulo de uma, surgia no ângulo da outra. Eram as verdadeiras testemunhas da sua rotina, embora só fossem conferidas em casos de ocorrência.
Outro relâmpago seguido de um estrondo. As lâmpadas piscaram, dando um ar fantasmagórico aos corredores. A noite prometia. E também se arrastava…
Às 3h10, porém, a chuva cessou. Em algum lugar lá fora, um cão latiu e outros responderam. Sintonizou a televisão numa comédia dos anos 60. Após cochilar por quase uma hora, um drama barato passava na programação. O relógio agora marcava 3h50. Não demoraria muito para que o primeiro funcionário da limpeza chegasse. Recolheu o colchonete, ajeitou a mochila, desligou a TV, verificou o banheiro e procurou pelas chaves…
(Onde havia deixado a porra das chaves?)
Não estava mais com vontade de beber. Mais um único gole, vomitaria. No entanto, não era preciso experiência para saber que se os putos da administração encontrassem as chaves perdidas em algum lugar, ele estaria numa situação… Bem... Numa situação estranha.
Às 4h15 obrigou suas pernas a seguirem uma última vez pelos corredores… Mesmo naquela hora as paredes pareciam ir e vir, à medida que ele andava, e o zumbido das lâmpadas enchia sua cabeça. Um grande besouro entrara pelos basculantes e debatia as perninhas, de costas no chão. Pisou-o, ouvindo um estalo sob a bota.
Após verificar as salas do primeiro e segundo andares, sem encontrar um sinal sequer do que procurava, parou na entrada do Salão de Ciências, vendo sua sombra recortada à porta. Alguma coisa varou a névoa dos seus sentidos, e fez com que ele acendesse abruptamente o interruptor.
O sarcófago… Poderia jurar que estava fechado. O aroma parecido com incenso também estava mais forte. E o mais esquisito era que os braços da múmia não estavam cruzados em forma de X como costumam ficar os braços das múmias. Em vez disso, pendiam nos lados do corpo, cheios de tiras rebentadas. A múmia parecia literalmente de pé, em vez de recostada. E a visão era muito pior que nos filmes.
Deu meia-volta para correr, e um entorpecimento fez com que as pernas trançassem. Caiu de bruços, tentando se levantar desajeitadamente. Um barulho de tendões rangendo e guinchando como cordas de um relógio velho, foi ouvido. Depois uma sombra lenta, porém determinada, foi cobrindo seu corpo. Uma mão que jamais foi capaz de um gesto de piedade o agarrou com dedos mortos. Joshua se viu de frente com um par de olhos e entreabertos sob pálpebras tortas, enquanto seus pés balançavam acima do chão.
“Socorro” foi sua última palavra. E nem sequer a terminou.
No dia seguinte, a próxima aula pareceria a mais demorada da semana. Porém, quando o sarcófago foi aberto, uma debandada em massa ocorreu, deixando o salão vazio.
Depois, uma foto de jornal mostraria o corpo retorcido do velho Joshua. A língua e os órgãos genitais arrancados barbaramente, e colocados dentro de um vaso de cerâmica. A legenda falaria também sobre um cheiro de flores a pairar.
FIM