No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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O QUARTO SECRETO


Depois que o pai morreu e a mãe passou a trabalhar numa lavanderia ao norte da cidade, Isaac e seu detestável irmão George passavam a maior parte do tempo sozinhos. E as coisas eram levadas como se podia naquela casa de grande quintal e uma árvore lançando sombra no portão.

Quase metade do tempo era passada no colégio. George, tendo repetido o quinto ano, agora repetia o sexto. E Isaac, que nunca havia repetido, agora estava na mesma série que ele. Mas para George, que se sentia um predestinado a colocar os Isaacs do mundo em seus lugares, o irmão seria sempre a Vítima Modelo. Desde cedo, o pai, um temperamental operador de máquinas, mostrava certa predileção por George, não por ser o mais velho, mas por mostrar traços parecidos com os seus, como mastigar de lado ou coçar o nariz antes de uma discussão. A George, ensinara tarefas mais importantes, como fazer manutenções. O paspalho do irmão menor descascava batatas junto com a mãe. Isso mostrava a George o quanto ele era… Superior! Sentia imenso orgulho de si mesmo. Além disso, também começara a se barbear. Usava o aparelho do pai, que ficava guardado em cima do armário. Nos últimos tempos, passou a demorar um pouco mais no banheiro. Algumas vezes se constrangia pelas manchas amarelas que a mãe encontrava em seus lençóis.

Isaac, por sua vez, já estava acostumado a ser “mosca na teia”, com aquele irmão cujo hábito mais comum era batizá-lo de uma variedade de nomes que não fossem o seu. A presença do irmão fazia Isaac guardar para si, até uma dor aguda de dente. Do contrário, as brincadeiras de mau gosto seriam inevitáveis. Mas sempre havia formas de se ir levando. O importante era a chegada da mãe, com a casa em dia. Não importavam as escoriações por baixo da sua roupa, ou a hipócrita expressão de George, quando ela lhe acarinhava o rosto.

Nenhum lugar na casa pertencia exatamente a Isaac. Alguns lugares até, pertenciam EXCLUSIVAMENTE a George. Principalmente a parte dos fundos, a qual chegava mesmo a chamar de “sua oficina”. Mesmo o quarto que George compartilhava com o irmão, refletia sua personalidade dominante.


“Seu Lugar Secreto”, como Isaac gostava de chamar, era um local na casa que ele descobrira no último verão, quando um estranho sonambulismo o conduzira. Acreditava que nem mesmo o pai soubesse da sua existência.

Foi numa noite de final de ano, quando George viajou para a casa da tia Ruth. Nesse período Isaac passava as tardes fazendo o que a presença do irmão não permitia, desde escrever poemas a ouvir músicas do Secret Garden. Certa manhã acordara ainda com a lembrança vaga de um sonho… Só na terceira ou quarta vez, percebeu que o "sonho” não teria sido exatamente sonho. Chegou a examinar o lado externo da casa, à procura de algo que sinalizasse a existência de um novo cômodo. O que pelas leis da física seria impossível. No entanto, ao se ver no corredor numa determinada hora, se deparava com a pequena porta de estilo medieval. Ao cruzá-la, tinha a esquisita impressão de ter cruzado degraus, embora seus pés jamais tivessem deixado o chão… Depois se deparava com um mistério maior ainda: uma mesa apodrecida, um toco de vela apagado, um livro enorme, e paredes muito antigas. Sem janelas. Somente a porta que usara. “Porque” e “como” eram pensamentos que não conseguia formular. A sensação de acolhimento dispensava tudo. Como se ele não atravessasse a porta, mas ela simplesmente o recebesse. Nos dias seguintes, estranhas mudanças começaram a ganhar espaço. 


– Onde você estava? Estou te procurando há meia hora! Quer que mãe nos ponha num internato? Palhaço! – Disse George, certa vez.

- Cuide da sua vida! – Disse o outro, e as faces de George se avermelharam. A atitude não era típica de alguém como Isaac.

– Da próxima vez fale comigo! – O tom ameaçador desta vez causou a Isaac uma reação que não era medo, como acontecia quando George arrancava das suas mãos a revista que ele comprara.

– Toque no que é meu mais uma vez e eu desapareço. Quero ver você dizer para a mãe que eu não suporto ficar junto com você porque você é um grandissíssimo filho da puta! – Raiva e algum outro sentimento haviam se misturado na expressão de George. Susto, talvez… Porque Isaac começava a realmente assustá-lo. Depois de várias vezes gritando seu nome de um lado para o outro, lá estava Isaac concentrado em seu caderno ou assistindo TV, como se não tivesse saído do lugar. E não era só isso. Isaac estava ficando... Como aqueles outros garotos do colégio.

– Estava no banheiro! – Disse Isaac, e a expressão era de um adulto que deixa um menino ganhar uma partida. Não vá querer que eu suje a cama! – “Quer que eu suje a cama igual a você, Diorj?” Era o que o olhar dele dizia. Mas não era ainda o momento de fazer o outro perder o controle.

– Mentiroso de merda! Te procurei em cada canto! – A vermelhidão no rosto de George incandescia.

– Tem certeza? – Agora o tom de Isaac era nitidamente zombeteiro.

Por um momento George se sentiu como se tivesse nove anos, em vez de 14. Saiu, pisando duro.


O outono chegou como um prenúncio… As folhas mortas enchiam o quintal, o vento dava pancadas nas janelas, os pássaros silenciaram, e os “sumiços” de Isaac ficaram cada vez mais constantes. Um verdadeiro enigma.

Como ele fazia para lhe passar a perna, era algo que George não sabia dizer. Mas descobriria. E iria finalmente encostá-lo na parede.

Pela manhã, mais uma tarefa tinha início. Ao varrerem as folhas, George não parava de observá-lo, com um ressentimento. Ele descobriria o segredo. E Isaac se arrependeria de tê-lo feito de palhaço. Só precisava dar um pouco mais de corda.

Depois disso, porém, outras coisas mudaram… Isaac estaria realmente pirando. Ao abrir o caderno do irmão para dar uma cuspida, George encontrou coisas inquietantes em vez dos exercícios escolares caprichosamente em dia. Anjos voando de cabeça para baixo, desenhos parecidos com estrelas do mar, e uma grotesca caricatura dele mesmo, sendo montado por algo de seis braços. Pôde se reconhecer naqueles traços, devido a um Band-Aid que usara após barbear-se. Folheando as páginas, o mal-estar aumentou ao ver um desfile que poderia ou não ser de frases… As palavras eram coisas impronunciáveis como as do Manuscrito Voynich e pareciam dançar diante dos seus olhos. Fechou rapidamente o caderno e o largou. Depois o caderno desapareceu. E uma nova pergunta surgiu na mente de George: o que o outro fazia, enquanto todos dormiam?

Às 3h da madrugada, Isaac se levantou silenciosamente… Lutando contra o sono, George viu sua silhueta frágil se recortar. Depois não ouviu nenhum trinco se abrir, nenhuma dobradiça ranger no resto da casa. Se preparou para surpreender o irmão, de um jeito que iria lhe baixar de uma vez por todas a moral. Pé por pé, contornou a cama em direção à porta. Ao cruzá-la, sua sombra se alongou na parede da sala. Havia uma porta, adiante… Além dela, o corredor. E uma luz tremulante se apagou.

Espiou e viu algo impossível… Nunca fora muito bom com questões de lógica, mas podia jurar que atrás daquela parede ficava a parte dos fundos do quintal, onde guardavam suas bicicletas, vassouras, ferramentas, etc… Logo não era para aquela porta estar ali. E ela se diferenciava de todos os padrões da casa. Parecia algo inspirado num livro de RPG. Ao tocá-la, recolheu a mão como se uma descarga elétrica a repelisse, e a porta foi se abrindo lentamente… No primeiro momento sentiu um cheiro de tumbas recém-abertas. Quando se deu conta, a impulsividade já o havia feito dar uns cinco passos, e a porta se fechou.

O vulto na escuridão era de uma criança. Mas a voz era de uma coisa confinada a um esquecimento eterno... Trazida pelo dom peculiar de um garoto e por leituras de um Livro que jamais deveria ter sido encontrado.

.– Isaac já atravessou! – Disse a voz baixa e arrastada. Por um segundo, George vislumbrou cinco olhos brilhantes. Lá fora, um relâmpago rasgou o céu.

O dia seguinte seria agitado. Lorena despertou sentindo uma pontada nas têmporas. Ao preparar o café, olhou pelo basculante e pensou sobre como a previsão do tempo estava louca. Foi ao quarto dos garotos, e lá encontrou Isaac dormindo com o polegar na boca. Esse hábito vinha ocorrendo muito ultimamente. Onde estaria George? Pensou olhando uma das camas vazia, o cobertor embolado. Na certa, aprontando das suas, crente que estava passando despercebido. Esperava outro comunicado do colégio, a qualquer momento.

Precisava ter uma conversa com ele, sobre reclamações que ouvira. Sobre suas notas, que andavam cada vez piores, e também sobre Isaac. Essa era a parte mais delicada. Sentiu os olhos lacrimejarem. Que idiota ela fora…

Por várias vezes, ele parecera querer contar algo. Outras coisas também a vinham incomodando… Aquele pássaro jogado na lata de lixo, aquele rato enforcado no galho da árvore, aquele círculo de besouros do lado de fora da janela… E algumas coisas mais, que evitaria pensar, até que ela chamasse George e tivesse uma conversa bastante séria. Beijou a testa morna de Isaac, estranhando um cheiro desagradável em suas roupas, e saiu.

FIM

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 19/06/2026
Alterado em 05/07/2026


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