
VIAGEM À LOUCURA
“Carro desgovernado causa múltiplas colisões, deixando três pessoas gravemente feridas…” O delegado colocou o jornal sobre a mesa e foi ao bebedouro. Retornou, cruzando a enxurrada de vozes que definia mais um dia no departamento. - Como ele está? – Perguntou ao assistente. – Ainda não diz coisa com coisa! – Disse o outro, ajeitando uma pilha de documentos. O delegado suspirou. – Acho que no lugar dele eu também não diria! –
Aqui, doutor! – Disse o carcereiro, entrando pela porta interna. O delegado apanhou o grosso bloco de notas onde um lápis de cera fora usado até o cotoco. – É… – Disse, coçando o bigode ruivo. – Parece que finalmente estamos tendo algum resultado! – Folheou o grande maço de papéis com cheiro de naftalina, cuidadosamente datado. Não demorou para que fosse lido com certa dificuldade, apesar da boa gramática. Afinal, o que mais um bloco de papel velho e um lápis de cera podem oferecer?
Estava sentindo falta de algo semelhante, desde o caso dos estudantes que desapareceram na casa vazia. Não era nenhum fã de Arquivo X, mas delegacias de cidades pequenas sempre estão no caminho das coisas estranhas. E aquele era um caso, no mínimo curioso. O homem que ocupava uma das celas chamava-se Antony. Antony Santini. De acordo com informações, trabalhava na Biblioteca Central. Ficou órfão aos nove anos, por parte de mãe. Depois, aos 13, por parte de pai. Foi adotado por uma tia-avó italiana, assim como a irmã… – Uma pausa enquanto estudava a caligrafia confusa. “Formou-se em 1985. Casou-se com uma antiga colega de classe, vindo a se separar três anos depois, com a gravidez dela, e ao descobrir que não poderia ter filhos! – Sem qualquer ligação com álcool, drogas e coisas do gênero – estava escrito em letras maiúsculas. Atualmente amava a solidão e desfrutava de licença recomendada. Ver uma estrada com paisagens verdejantes o fazia experimentar uma sensação de encontro consigo mesmo...”
Então estava a mais de um dia de distância da sua cidade para lugar nenhum. O vento soprava seu rosto pela janela, e o motor vibrava num murmúrio que fazia relaxar. Em algum ponto hospedou-se num hotel de beira de estrada. Uma construção de aspecto taciturno, que não ficaria mal numa fotografia em preto e branco, mas também não deixava de ter certa elegância. O movimento parecia ínfimo em qualquer época do ano. Um ancião jogando paciência, um vendedor procurando mapas de viagem, um rapaz de rosto livresco debruçado na varanda… Do lado de fora, o estacionamento era repleto de vegetação rasteira e manchas de óleo. Uma cabine telefônica incrustada de poeira parecia desafiar o tempo. Era o mês de novembro. As previsões anunciavam chuva, embora o dia ensolarado fizesse duvidar. As linhas internas aguardavam manutenção, e o celular estava com a bateria quase no final.
Ao conferir o funcionamento do telefone na cabine, recolocou-o no gancho e sua respiração se suspendeu... A mulher do lado de fora devia ter mais ou menos 1,78 de altura, mas o que lhe chamou a atenção mesmo foram os grandes olhos escuros, quase melancólicos, apesar do vestígio de sorriso no canto da boca. Um misto de doçura e inquietação o tomou. – Posso ajudá-la, senhorita? – Perguntou, esperando que a vermelhidão em seu rosto não fosse tão visível. Depois levou a mão ao bolso, com desconforto, retirou as chaves e as colocou no outro bolso, desajeitadamente. Logo, não era alguém querendo informações. Nem o tipo de ilusão comum nos homens solitários. A moça se chamava Elise. Havia tido problemas com seu carro. Uma carona à próxima cidade foi o assunto que a levara até ele. Prometeu fazer tudo para não incomodar. E ele percebeu também como era agradável o som da voz… Como uma melodia de cordas numa tarde de verão. Lembrou-se de uma professora que tivera no colegial, e que fora apaixonado. – Problema nenhum, moça! Levo você! – Mais uma vez levou a mão ao bolso em busca das chaves, num reflexo típico.
Ao acertar a diária, saiu à varanda, retirando a jaqueta e jogando ao ombro. Ela o esperava junto ao Volvo, a bolsa branca tipo carteira, numa das mãos, os cabelos longos, escuros, soprados pelo vento. Sentiu o coração acelerar quando ela posicionou a perna para sentar-se ao seu lado. – E vaaamos nós!! – Disse, tentando ser engraçado. E o hotel se distanciou até se perder de vista, no retrovisor.
No caminho, pensou se devia perguntar sua idade. Achou melhor não fazê-lo. Tudo o que importava, afinal, era a presença dela junto a ele. Um cercado pintado de cal desfilou por quase vinte minutos na janela do carona. À sua esquerda, um caminhão veloz deixou um vácuo estrondoso no ar. Ela nada dizia. Não parava de olhá-la pelo canto do olho, sentindo a boca seca. Então ligou o rádio. Sentiu-se melhor, vendo-a tamborilar os dedos sobre o joelho, com o ritmo suave da música e um anel turquesa reluzindo no indicador.
A velocidade não passava de 65 km/h, como se uma parte dele não quisesse chegar tão cedo, fosse lá onde fosse. Uma propaganda mergulhada em vegetação foi ficando para trás. Outro caminhão cruzou velozmente na direção contrária. Logo, passaram por um trecho de árvores enfileiradas. Os ramos jogavam sombras sobre o vidro do painel. Percebeu que ela quase sorria, o rosto sempre voltado para frente. O locutor de voz sonhadora anunciou uma sequência dos anos 70. Nesse momento, ela virou a cabeça e o fitou. Novamente sentiu a sensação de embaraço. Pensou em perguntar algo, mas não conseguia. A pergunta sairia estranha, desajeitada. Apenas fez um gesto afirmativo e bem-humorado, com medo de parecer idiota. E ela sorriu com todo o seu encanto. – Você é de onde? – Perguntou, olhando de novo para a estrada. – Acho que de lugar nenhum! – Respondeu, soando mais desajeitado do que queria. Ela riu, um riso doce, cristalino. Depois tocou os lábios com a ponta dos dedos, de modo reflexivo. Ele disse o nome da cidade onde nascera. Depois contou alguma coisa sobre sua vida, tomando cuidado para não deixar escapar sobre a relação conjugal frustrada. Ela tornou a fitá-lo. Dessa vez desejou que ela tocasse seu rosto. – Você é um homem bom! Espero que esteja feliz com a forma como vive! – Havia algo diferente na frase. Teria achado mais correto se fosse apenas “Espero que esteja feliz!” Mas a olhou de modo agradecido. Algo se moveu por trás dos olhos dela... Como uma sombra sob águas profundas. A impressão se desfez, quando ela acrescentou: “E cuidado com a estrada…” A frase tinha um leve tom de intimidade. E a última palavra se perdeu, com mais um vácuo estrondoso do lado de fora. Ela ergueu as sobrancelhas. Finalmente um gesto comum naquela mulher que parecia vir de um sonho. Dessa vez foi ele quem sorriu, olhando adiante.
Pouco depois ela tocou seu braço e sua pele se arrepiou. O sorriso dela se abriu de novo, num encanto adolescente. Sentia-se despreparado para um sorriso daquele. – Pode parar no próximo quilômetro? Preciso falar com uma pessoa! – As palavras “Preciso falar com uma pessoa!” lhe doeram um pouco. Precisava ter cuidado para não meter o pé na jaca. – Claro, Elise! – Disse, como que saído de um transe. Depois de uma pausa que pareceu demorar muito mais que três segundos, acrescentou: – Lhe esperarei! – Ela agradeceu, e ele imaginou um beijo em seu rosto. Chegou quase a vê-la fazendo isso. Ela apenas lhe piscou um olho. Os cílios longos, parecidos com cílios de boneca. – Voltarei logo, está bem? – Fechou a porta, olhando-o com doçura, enquanto se afastava. Do mesmo jeito que se deixa uma criança sentada, enquanto se vai comprar algo. O programa “Recordações” continuou, dessa vez com sucesso dos Carpenters. A sequência embalou seus pensamentos, por longo tempo. A porta aberta ao seu lado causava-lhe boa sensação. Acendeu seu último cigarro. A maior parte dos veículos seguia como se o Volvo parado no meio do nada fosse parte da paisagem. Um ou outro motorista virava a cabeça, dando uma batidinha na buzina como se dissesse: “É isso aí, né parceiro? Tchau!”
Depois de quase cochilar, deu-se conta de que uma hora havia se passado desde a última vez que a vira. Os primeiros pingos de chuva salpicaram as janelas do carro. Depois o isolaram por trás de uma cortina d'água. Olhou com desolação as pequeninas pedras de granizo. O cheiro de terra molhada quase passava através dos vidros. Desligou o rádio e olhou o relógio. Lá se ia quase uma hora e meia… Com a diminuição da chuva, saiu batendo a porta atrás de si. As poças brilhavam sob a luz da tarde e um vento úmido lhe soprava o rosto. Sentiu-se perdido. Uma pequena varredura já mostrava a real solidão do lugar. Não via nenhum sinal de moradores. As nuvens se abriam, com pálidos raios de sol. Voltou a olhar em todas as direções, sem saber o que fazer. A ideia de Elise tomando outra carona e passando por ele atrás de um vidro fumê, fez com que ele sentisse um aperto por dentro. A ideia de ela estar aos risos, por certo o mataria. Retornou ao carro, de mau humor. Ao abrir novamente a porta, sentiu surpresa e vergonha. Não havia notado a bolsa junto à sua jaqueta. Não que isso diminuísse a estranheza da situação. Aquele era um local ermo. Do tipo que se distancia no espelho de um retrovisor e não se pensa mais. Abriu a janela, sentindo o carro arejar. Um bando de pássaros cruzou o céu, na direção norte. Apanhou a bolsa tipo carteira e abriu o fecho. Um leve perfume de flores lhe veio às narinas… Só havia um caderno de anotações no fundo. A capa era de um couro bastante velho. Nada escrito nas folhas amarelas. Mesmo assim havia algo inquietante ali. De repente as palavras “Trilha dos Mochos, Km 85” surgiram, em tinta borrada. Deixou o caderno cair, olhando a placa molhada do lado de fora. “Km 85”.
Havia realmente uma trilha de chão. Ele a vira de relance, alguns metros antes. Apenas por acaso, pois estava bastante obscurecida pela vegetação. A ideia de Elise estar em apuros, de repente era quase um sussurro em seus ouvidos. No instante seguinte, seguiu de volta por onde tinham vindo.
A trilha, se realmente era a mesma descrita no endereço, era bastante acidentada. Fazia duvidar que veículos maiores pudessem transitá-la. Pelo aspecto, aliás, duvidava que qualquer veículo tivesse transitado por ali, nos últimos anos. Não via uma placa que indicasse qualquer coisa. Mas, pelo que se lembrava, também não vira outra rua, trilha ou coisa parecida, nos últimos quilômetros. Só paisagem silvestre e muita solidão. O carro sacolejava incomodamente sobre o chão irregular. A miniatura de Carlitos saltitava pendurada acima do painel. De algum lugar lá fora, um pássaro emitiu um som semelhante a uma risada. Passou por um pedaço de madeira apodrecido e um emaranhado de arame enferrujado. Minutos depois, a trilha fazia uma curva. Começava a duvidar que Elise tivesse estado por ali. Mas onde mais teria ido? E onde mais ficaria a chamada Trilha dos Mochos próxima a um quilômetro 85?
A trilha virou uma subida que quase o fez desistir. Mas parecia que uma força hipnótica o impelia. Aos poucos a subida se amenizava, as árvores rareavam e não ouvia mais vegetação roçando nas laterais. Não demorou para que a freada derrubasse as coisas do banco e fizesse a miniatura de Carlitos pipocar com mais força.
O muro à sua frente era muito baixo. E a visão além fazia pensar num cemitério de família daqueles do século XIX. Os túmulos castigados dividiam espaço na pequena quadra. Tudo banhado pelo fraco sol do entardecer.
Caminhou sobre o chão lodoso… O silêncio reinava… As sombras punham em tudo um efeito surreal. De repente se deparou com a entrada de pedra no barranco. Algum antigo desabamento deixou ali um toque exótico, tipo algo que se vê nos contos de fadas. Não havia trancas ou coisas do tipo. Apenas uma argola enferrujada e um conjunto de entalhes emoldurando a porta. Ele queria abri-la. Ver o que tinha por trás.
Após algum esforço, a visão do interior surgiu, com um hálito frio em seu rosto… Degraus enegrecidos descendo até o limite da luz e sendo cortados por uma escuridão maciça. Sem laterais. A menor tontura levaria à queda num vazio negro. Mesmo assim, a sensação febril que o levara até ali, fez com que descesse dois deles. E um som cadenciado chegou aos seus ouvidos… A princípio, distante… Aos poucos, próximo… Algo subia a escada, em direção a ele. Na escuridão a forma era tão vaga que era como se os olhos lhe pregassem peças. Logo assumiu contornos... E ele distinguiu uma mortalha suja pendendo de uma figura morta. Apenas os braços eram visíveis. Uma mão feito garra, com tendões se movendo na palma descarnada, tentava alcançá-lo. Algo como um riso monótono, cacarejante, soava por trás do linho apodrecido.
Tudo aconteceu rápido… Num instante, ele estava prestes a ser arrastado para a escuridão. No outro, entrava como uma bala, pelo carro adentro, batendo a porta quase ao mesmo tempo em que girava a chave e pisava no acelerador… Não saberia dizer que milagre o impediu de ir de encontro a uma árvore. Dias depois estaria numa clínica, e as lembranças seriam como um sonho. Como se um tipo de semiconsciência o tivesse guiado, do momento em que saíra do hotel até o momento em que irrompera na estrada movimentada, lá embaixo. Um detalhe, porém, ficaria em sua mente para sempre… Algo que ele vira num milésimo de segundo, e nenhum medicamento ou terapia o faria esquecer: “Aquele anel pendurado no dedo da coisa… Aquele anel…”
Após atender um telefonema, o delegado deixou de lado o bloco de notas, esfregando os olhos cansados. – Podem trazê-lo! – Disse, recompondo-se. Pouco depois, dois policiais escoltaram o detento até a mesa. As roupas estavam amarrotadas e o rosto ainda trazia escoriações do acidente. Um dos policiais afastou a cadeira e o ajeitou como se fosse um boneco de arame. O delegado coçou a dobra do queixo olhando-o pensativamente. – Sr. Antony… – Agora se debruçou com os cotovelos sobre a mesa – Gostaria que pudéssemos conversar um pouco mais, mas seu caso está saindo da minha alçada, então vou ser breve. – O Senhor é um homem de boas referências, e acima de tudo sem antecedentes, como pudemos averiguar. Isso ameniza muita coisa. Mas o fato é que… – Uma pausa que pareceu interminável, enquanto ele folheava o bloco. – Testemunhas disseram que seu carro surgiu “literalmente do nada” no momento das colisões, o senhor entende? Para ser mais específico, os bombeiros confirmaram que não existe qualquer trilha ou passagem lateral naquele ponto da estrada. Apenas áreas inexploradas! – Ficou em silêncio por um momento, ao perceber que o outro tinha algo a dizer. – No meu carro… Havia alguma coisa…– A voz de Antony era baixa, e a frase se perdeu como se já soubesse que não levaria a nada. O delegado suspirou e respondeu: – Apenas seus pertences pessoais, incluindo sua jaqueta! E uma carteira de motorista vencida! – Fez mais uma pausa, juntando laudos, documentos com assinaturas e mais o bloco com o depoimento. Parou novamente, nesse último. – Não creio que faça diferença lhe pedir mais explicações, a esta altura! Aonde eu tento chegar é… Simplesmente não sei o que pensar desta história! – Colocou tudo de volta na gaveta, fechou-a e entrelaçou outra vez as mãos sobre a mesa. – Para finalizarmos, ainda há algo que preciso lhe dizer. – Dessa vez houve uma ponta de solidariedade. – As pessoas que lhe viram deixar o hotel e seguir em direção ao carro afirmam que não havia ninguém à sua espera! Que o senhor estava completamente só!
FIM