
SANSÃO
No ano em que a epidemia se alastrou, o mercado pecuário sofreu graves alterações, com relação à criação e ao consumo. Grandes prejuízos assolaram aquele período, com imensas nuvens de fumaça subindo aos céus, enquanto operários, ainda com lenços cobrindo os narizes, arrastavam carcaças e as amontoavam no centro das fazendas.
Os maquinistas trabalhavam dia e noite cavando valas, e o empobrecimento dos criadores ia atingindo também outros setores, resultando em situações nas quais muitos optavam pela importação. Caso contrário, a falência dos estabelecimentos seria tão iminente quanto o colapso do fornecimento.
Com a importação, o consumo sofreu uma redução considerável, já que os custos haviam subido de forma quase explosiva.
Um movimento massivo se deu, com passeatas, cartazes e atos violentos. Esse movimento chegou ao seu ápice. Várias reuniões foram feitas com representantes de conselhos, para negociar perdas e medidas provisórias. O conflito, porém, não mostrava possibilidade de se amainar, de forma que as autoridades mobilizaram-se para pedir auxílio externo, já que as importações desestabilizaram mais ainda a estrutura econômica em seus diversos setores. Em meio a esse caos, surgiu o HZ3: uma poderosa vacina, cujo efeito não se limitava apenas à prevenção contra a doença, mas trazia a cura quase imediata. E um equilíbrio foi finalmente estabelecido. Uma mudança considerável tomou conta do quadro, apesar da procedência desconhecida da vacina. Tempos depois o HZ3 saiu de circulação, por motivos ignorados. Mas sua necessidade também tornara-se coisa do passado.
15 de maio de 2005
Oi! Eu sou Amós! Neto de italianos, com pouca coisa herdada dos meus avós. Nesse “pouco” se inclui um sangue quente e uma devoção fervorosa. Mistura típica dos sicilianos.
Vivo com minha filhinha, nestas terras compradas com todo trabalho e esforço que mereceram. O celeiro ainda mantenho, mas com algumas modificações, já que precisava mesmo de reformas, incluindo a pintura na parte externa e também a troca das telhas. Na parte interna, eliminamos um lance de dezesseis degraus e retiramos todo o segundo andar. Só uma única janela permanece, como um toque de estranheza, sempre que entramos e olhamos para o alto.
Creio, segundo o Livro Santo, que Deus escreve certo por linhas tortas. Que Ele tenha piedade da pobre alma do antigo proprietário, e nos abençoe neste caminho onde seguimos, eu e minha filha Paty.
Nesta época, eu e minha menina ficamos longo tempo admirando o trigal na parte de trás da fazenda, enquanto o vento o agita, num murmúrio baixo e acalentador. Com isso, experimento aquela gostosa sensação de antes da colheita, fitando pensativamente aquelas ondas douradas sob o azul do céu.
Claro que a vida na fazenda não é apenas isso! Eu e uns poucos empregados suamos a camisa para fazer deste lugar algo digno de uma vida sem problemas, sem contar uns poucos contatos com a cidade.
Paty diz não querer ir para nenhuma faculdade. E que o lugar dela é aqui, ao lado do pai. Mas insisti para que ela terminasse pelo menos a oitava série no colégio anexo à igreja. Afinal, alguém na família precisa ir mais longe!
Ela ficou uma moça linda como a mãe! Às vezes vejo-a caminhando descalça em direção ao celeiro, com seu pequeno short puído, suas pernas longas e o cabelo louro que ela gosta de manter amarrado; e me pergunto o que aconteceu com aquela criança que eu levava sobre meu ombro. Mamma Mia!! Parece que foi ontem! E agradeço mais uma vez ao bom Deus por tudo que ele me permite ter, apesar de tempestades, caminhos pedregosos e tudo mais que atravessamos para conseguir a merecida Graça.
Na primavera, Paty tem mania de colher todas as flores que encontra em suas andanças, para juntá-las num jarro sobre a mesa de refeição. Uma imitação perfeita da mãe. Mas que me deixa sempre com vontade de chorar, pensando na minha Matilda, que descansa junto ao bom Deus. Nessas horas Paty percebe meus olhos úmidos, e eu apenas acarinho seu rosto, sem dizer nada.
Ainda assim, temos motivos de sobra para nos orgulhar do que possuímos. Tudo o que fica, apesar das perdas, considero como vontade divina. Uma enorme casa branca com janelas azuis, um largo caminho de lajotas, do portão principal à varanda, além do trigal separado por um portão mais antigo e limitado por um cercado que permanece desde tempos imemoriais.
A área oferece um agradável passeio entre laranjeiras que plantei aqui e ali. Duas delas agora estendem suas sombras na entrada. À direita, uma pequena trilha leva até o celeiro. À esquerda, um velho galpão permanece fechado com um cadeado. E em meio a tudo isso, não esqueçamos os beija-flores rondando as rosas que cultivamos na varanda, nunca deixando de agradecer ao bom Deus por esta vida simples e farta. Como parte de tudo, no final, temos nosso mascote, Sansão... Que entrou em nossas vidas alguns meses após o fim da epidemia.
Sansão nos primeiros dias me assustava... depois aprendi a amá-lo quase tanto quanto a minha filha o ama. Digo “quase” porque no fundo ele ainda me assusta um pouco. Como acontece quando volto do trigal e me dou com ele me olhando de cabeça baixa, naquela maneira típica dos touros. Os olhos vermelhos mas serenos, a corcova que parece um rochedo imponente.
Nas tardes em que Paty vai à feirinha e eu fico só, ouço os baques surdos dos seus cascos do lado de fora das janelas. Então vou às tarefas e vejo as pegadas, cada qual do tamanho do pneu de um caminhão.
Mas creio que a aparente anormalidade de Sansão é compensada por uma bondade como jamais vi em nenhuma outra criatura. Nunca foi preciso que usássemos os recursos que os criadores costumam empregar, como argolas de ferro nas narinas, varas e cercas reforçadas. Sansão sempre foi dócil como uma ovelha. Pelo menos uma docilidade que supera qualquer impressão inicial. E um simples toque em seu focinho úmido parece sempre transmitir a confiança necessária. Foi o que vi quando Paty o tocou, certa vez, na primavera, após o falecimento da mãe. Quase dei um grito e deixei cair a caixa de ferramentas, ao ver minha menina na ponta dos pés, erguendo a mão para roçar a ponta dos dedos no focinho de Sansão... A imagem de Paty tendo metade do corpo mastigada pairou com uma clareza de pesadelo na frente dos meus olhos… Mas Sansão apenas fungou, fazendo ir parar longe a flor que ela usava no cabelo. Depois nos seguiu pacificamente até o galpão onde o alojamos, e ali permaneceu em silêncio.
Logo, Sansão era uma presença costumeira, mesmo com seu tamanho incomum. Nunca havíamos tido muitos problemas, até onde posso lhes contar. Já não digo das rochas removidas na parte leste, a fim de ganharmos mais uns bons metros de terra produtiva. Tarefa ingrata até mesmo para as máquinas. Muitos obstáculos foram arrancados, ante o olhar de espanto dos vizinhos enquanto as correntes quase se rompiam sobre os músculos tensos de Sansão...
Boa parte do tempo, no entanto, ele transitava calmamente pela propriedade. Em geral em seus locais prediletos. Junto às laranjeiras, cujas copas destroçadas traziam sempre os sinais do seu apetite.
“Acabou de ser desgarrado da mãe!” Creio terem sido essas as palavras do anunciante, naquele leilão em 2001. Mas havia algo estranho. Pois o que todos viam à sua frente era um animal de tamanho adulto, embora com os chifres ainda despontando na cabeça malhada.
Paty, então com seus oito anos, não conseguia conter o entusiasmo, em meio à multidão. – É grande igual ao Sansão!!! Ele não é grande igual ao Sansão, pai? – E arrematei a oferta.
Claro que no princípio eu não sabia muito o que fazer com ele; nada entendia sobre criação de gado, e minha filha, menos ainda. Assim, o mantivemos por aqui como um cão que nos segue quando voltamos para casa. Sei que Paty o amou no primeiro momento em que o viu. Isso para mim já bastava. Mesmo não sabendo ainda o que pensar sobre aqueles excrementos, cuja altura ultrapassava meus joelhos. E olha que sou bastante alto, considerando as botas que costumo usar. Enfim, adubo era algo com que jamais precisávamos nos preocupar.
Nos primeiros tempos, o alimentamos sob orientação dos criadores da “raça comum”. Só quando as laranjas começaram a desaparecer das árvores, junto com as copas quase inteiras... Quando o portão que separava o trigal começou a aparecer arrancado, junto com boa parte da cerca, foi que triplicamos o suprimento diário. E após o reforço alimentar, Sansão começou realmente a ganhar massa... Olhar Sansão nos olhos era como encarar um trator ligado. Um medo instintivo e não muito irracional nos toma de imediato.
Acima de tudo, Sansão era um presente de Deus. Fazia jus ao nome que minha filha escolheu, recordando-se das histórias que eu contara, com ela sentada sobre meu joelho e a Bíblia aberta sobre o outro.
Apesar da inocência com que as coisas (mesmo as incomuns) são vistas por aqui, tivemos de aprender a lidar também com os altos e baixos ligados à presença de algo como Sansão. A fazenda é pequena em comparação a outras, e cercada por outras propriedades. Assim, eram constantes os danos nas laranjeiras junto aos nossos cercados, os ramos viçosos e carregadinhos, transformados em tocos, de um dia para o outro. Sem falar na postura de Sansão, quando fitava os passantes, mantendo sempre a cabeça baixa, as fungadas possantes varrendo uma quantidade de folhas. Era o mais próximo que nosso mascote chegava da agressividade. Suficiente para manter pessoas a bons metros de distância.
Havia, claro, aquelas pessoas para as quais alguma coisa parecia falar mais alto do que o medo ou a curiosidade. Entre elas, estava um criador local conhecido como João Grande que, de grande, só não tinha o tamanho. Tinha 1,55 m de altura, usando botas, um humor vago no sorriso, e os olhos azuis sombreados por um chapéu veludoso. Mas era grande em tudo o que possuía. Em tudo o que conseguia com seu jeito complacente e inalterável. Não sei por que, mas não o invejava nem um pouco por isso. Nunca gostei do modo como aquele homenzinho de voz mansa olhava nossa fazenda, em frente ao nosso portão. Mantinha os polegares nos bolsos do macacão. Um ramo de mato parecia já ter nascido no canto da sua boca.
– O amigo tem carne naquele celeiro para alimentar uma família durante meses! Sabe disso? – Dizia, de maneira quase indulgente. Mas não era só indulgência que havia naquela voz de anão. Eu respondia apenas com um aceno de cabeça e um olhar enviesado. Mais tarde percebi o leve tom de ameaça.
– O amigo não deveria omitir um fornecimento desses! – Dizia, com o olhar na direção de Sansão, que ruminava solitariamente a certa distância, mesmo assim fazendo um carro de feno parecer um brinquedo. Abaixou a cabeça, olhando de baixo para cima, em nossa direção, como se compreendesse a presença do outro. De repente, socou o chão com um dos cascos, causando um tremor que derrubou folhas das árvores... E o sujeito me deu a satisfação de dar dois passos atrás. Sem alterar, porém, aquele olhar no rosto rosado.
Sabem como pequenas coisas podem nos irritar, quando repetidas muitas vezes. Certa vez perdi a paciência, quando ele perguntou se eu havia pensado no que ele dissera. Caminhei até o portão, ignorando a bolha dolorosa que se formava em meu pé. A altura dele não mudava, mesmo quando visto de mais perto. Tirei o cigarro de palha da boca, passando a língua pela manga da camisa, e falei:
– O amigo pode ver um trigal enorme em minhas terras, de qualquer distância, de qualquer direção que olhar! Mas já viu alguma vez mais de uma cabeça de gado? – O outro se limitou a coçar a verruga no lado do nariz vermelho...
– Talvez você não precise... –
– Não trabalho com pecuária! Apenas gosto de animais. Só isso! – Interrompi, parecendo brusco exatamente como pretendia.
– O amigo é quem sabe! – Disse, num suspiro. Depois concluiu, levando um dedo à beirada do chapéu, ainda sem alterar o sorriso benevolente. – Sempre a seu dispor! – Retirou-se em direção à Toyota, não sem antes me lançar um olhar daqueles que eu não gostava. O olhar de um adulto para uma criança teimosa. Diferente do homem do circo, que apenas enfiara um cartão cheio de estampas no bolso do meu macacão e me dera um tapinha no ombro, dizendo: – Qualquer coisa não se esqueça de mim! –
De outra vez, veio um homem elegante e de óculos, dizendo fazer parte de um tal “recenseamento”. Junto com ele estava uma mulher com um colete azul-marinho combinando com uma saia que lhe ia até as canelas. As perguntas não pareceram passar daquelas de rotina, embora os olhos dos dois não saíssem do galpão, onde Sansão felizmente repousava, protegido do sol daquele dia escaldante.
De fato, Sansão atraía muitas atenções. Nem todas de crianças ou simples trabalhadores do campo. Por vezes, João Grande mandava um representante sondar com olhos de gavião as minhas dependências. Alguns rostos eram até conhecidos; já os havia visto transitar nos festivais de rodeio anuais que animam nossa comunidade sonolenta. Mas outros pareciam ser da gente vinda de fora. Como se eu não conhecesse o manipulador por trás de tudo. João Grande era como um gato esperando pacientemente na saída de uma toca. E o acaso parecia beneficiá-lo na maioria das vezes. Apenas esperava a coisa estar pronta para ser conseguida. Era o meu caso. Ou quase.
– O Senhor poderia ganhar muito dinheiro com o belo exemplar que tem aí! Nunca vi nada igual! – Dissera então, um desses homens vindos de fora. – Deixe de lado a vaidade, homem... Nem é esse o seu ramo de negócios! – Falara com um meio sorriso, os braços cruzados em torno do peito, um pé apoiado no pneu do carro atrás de si. Parecia aqueles cowboys elegantes das antigas propagandas de cigarros.
– O moço me conhece? – Perguntei, na ocasião, sem tirar o cigarro de palha da boca.
– Quem nunca ouviu falar do bom Amós e sua exótica criatura? – Descruzou os braços, recompondo-se. Antes que eu desse alguma resposta, continuou. – Uma pessoa muito forte por aqui está interessada em seu espécime! Pode acreditar! – Então acendeu um cigarro com um isqueiro dourado. Fitou-me por entre a fumaça, com dois olhos castanhos frios. Meus olhos se desviaram dele, por um instante, e observei os dois que estavam dentro do carro. Olhavam direto para frente como se estivessem alheios à conversa. Um deles com o braço apoiado do lado de fora da janela. Com certeza mais queimado pelo sol do que o outro.
– Fico contente com isso! Mas não preciso! – Falei, tirando o cigarro da boca e cuspindo o pequeno pedaço de fumo. – A única coisa que preciso vender por aqui é trigo! Se o moço conhecer alguém que precise de fornecimento, o endereço é este! –
O outro nada disse. Apagou a ponta do cigarro entre o polegar e o indicador. Olhou para todos os lados distraidamente, como se apreciasse a paisagem.
– Bem... Até outra hora! – Levou um dedo à beirada do chapéu e caminhou de volta ao carro, com um molho de chaves tilintando ao lado da cintura. E o carro desapareceu, deixando um rastro de poeira na tarde ensolarada.
Não sei por que me lembrei dessa conversa, quando tentaram incendiar o trigal. Fora um dia seco. Poderia ter sido o Prejuízo do Ano. O fato foi que: ou o autor não articulou bem o seu plano e o querosene não foi suficiente; ou o trigal ainda não estava em ponto de colheita; ou a Mão divina mais uma vez intercedeu a meu favor. Sabemos que o fogo apenas lambiscou uma parte da plantação, e a perda foi menor. Não que isso tenha feito pouca diferença. A queixa foi registrada no edifício maltratado nos arredores da praça, que todos chamam de delegacia. Mas aqui por estas bandas, não há muita coisa a se fazer. O tédio parece contagiar tudo, e uma indolência profunda parece reinar.
Como eu disse... João Grande era igual a um gato esperando na saída de uma toca. E o acaso sempre o beneficiava. Apenas esperava o momento certo. Na última vez que visitara meu portão, haviam se passado umas duas colheitas. E os últimos vestígios da queimada já haviam desaparecido.
– Como vai, meu bom homem? – Perguntara, com a mesma benevolência fria. – Vejo que parece mais próspero. Gostei da camisa nova! Combina com as botas! –
Senti aquela coisa conhecida na história da minha família me subir do estômago à garganta, depois ao rosto.
– Vim lhe desejar um feliz Dia de Ação de Graças. E lhe dizer que a minha oferta ainda está de pé! – Disse, de maneira tranquila, os polegares metidos nos bolsos do macacão. E então... – Bela moça, a sua filha! – Fez um gesto de cavalheiro para Paty, que acabara de sair à varanda. Paty retribuiu com um aceno vago e uma expressão neutra, antes de entrar novamente. João Grande colocou o chapéu de volta à cabeça calva, voltando a parecer um personagem de velhos filmes. Antes dele tocar o chapéu com a ponta dos dedos, me adiantei:
– Olha aqui... Porque você não vai tomar no cu? – Falei, cuspindo saliva na cara do sujeito, sem ligar a mínima.
– Já esperava uma resposta parecida! – Disse o outro, inalterável, a expressão cândida, como se eu não tivesse dito nada. Mas gostei de ver seus passos se dirigindo à Toyota, um pouco mais rápido do que de costume. Não sabíamos até quando isso duraria. Até quando teríamos de viver com os lobos à espreita do rebanho. Mas eu não estava disposto a ceder.
Ao menos em parte, nossa maior tristeza não tinha a ver com esses incômodos. Sabíamos que Sansão, como todos os gigantes, tinha seu poder de impressionar. Mas também tinha suas fraquezas.
Foi na noite da tempestade... Dormíamos profundamente. Havia sido um dia cansativo e a última colheita abarrotava nossos depósitos. Dávamos graças a Deus, pois se esperássemos mais um dia, ficaríamos em má situação. Pela manhã a tempestade havia se amainado. Um sol fraco forçava seu caminho entre as nuvens e iluminava as árvores gotejantes. Uma temperatura agradável marcava o final daquela estação. Assim como as árvores, as rosas na varanda traziam ainda as gotas da chuva anterior, e um solitário beija-flor pairava diante delas como um convidado que chega após a festa. E o último sinal de Sansão foi uma cerca arrebentada, nos limites do trigal, as pegadas inconfundíveis seguindo para além.
Não me perguntem o que foi feito do nosso amigo. Nem como fizemos para tê-lo de volta. Perguntem ao único dos homens de João Grande que voltou para casa certa noite, com os olhos arregalados e as pernas bambas, antes de desaparecer no mapa, deixando uma dívida no bar e um barracão sujo com peças de roupas penduradas nos pregos. Não esperou sequer os homens da polícia, para responder perguntas.
Ele lhes contaria muitas coisas… Como sua mãe morreu ao dar à luz um filho deformado; também contaria sobre como aprendeu a fazer as cartas de um baralho pularem de uma mão para a outra; contaria até algumas mentiras, como quando a Virgem Maria o ajudou num momento de necessidade, sem ninguém saber que ele havia roubado todas as moedas no pedestal da santa e mijado atrás da porta da igreja; ou sobre como venceu três rodeios seguidos. Logo, não faria mal se ele contasse sobre a quantidade de tiros que derrubaram Sansão: o primeiro no flanco traseiro fazendo o gigante capengar alguns metros, antes de tombar sob nova saraivada de balas… Contaria como ele e outros três, munidos de machados, facões e outras coisas mais, incluindo uma tesoura de podar ramos, caíram em cima de Sansão, que parecia agonizar num último suspiro.
Grandes nacos de carne foram retirados do corpo abatido, enquanto uma sanha alegre os fazia ignorar as roupas encharcadas de suor e sangue... Calcula-se que a tarefa pode ter sido mais dura do que se esperava, se tratando de homens inexperientes com técnicas de matadouro.
Os instrumentos cortantes brilhavam sob a luz da lua, enquanto prosseguiam incessantes, até o cansaço tomar conta de todos: as vestes ensopadas, os ouvidos zumbindo, os olhos vendo tudo girar, com aquele cheiro acre, enjoativo... De repente tudo se resumiu em desorientação e na dor que latejava em suas têmporas. E naqueles olhos tristes, abaixo deles... Tristes... E ainda despertos.
Um deles foi arremessado há trinta metros do chão. Caiu com um baque seco e uma pata imensa esmagou sua cabeça como um melão. Sansão estava de pé.
Talvez vocês não devessem acreditar em tudo. Ele contaria a mesma história em qualquer roda de bebidas, sempre com a “estranha mania” de olhar por cima dos ombros, toda hora.
Ele lhes contaria sobre como Sansão acabou com mais dois dos homens... Um deles, preso sob a pata titânica. Melhor dizendo, parte dele, enquanto sua outra metade era arrancada... Mais uma cabeça esmagada como uma abóbora madura… Por fim, contaria sobre o estado dos corpos, o cheiro de sangue ficando ainda mais denso... Os pedaços arremessados pelos chifres pontiagudos…
A última cena, porém, não contaria... Não conseguiria. Apenas sonharia com aquela silhueta feita de tiras sangrentas mugindo para os céus. Uma corrente presa ao chifre parecendo pairar em torno da besta. O peito monstruosamente estufado, um som comparável ao de caixas megafônicas. Aquela imagem, aquele cheiro, aquele som assustador, ficariam gravados para sempre em sua alma.
05 de novembro de 2007
Agora, um ar desolado paira no ambiente... Nosso lugarzinho, que um dia havia sido de paz. Ouço a roda de madeira ranger metodicamente, num carro de feno virado… É o vento da mudança de estação. Às vezes agita as cortinas e as janelas, me assustando com o barulho das pancadas.
Não tive mais ânimo para cuidar do trigal. Mais uma colheita que se vai. E uma vegetação daninha compartilha o solo com os inúteis pendões dourados. Em breve os mesmos irão se confundir com mato.
Sabem como a idade mexe com a gente. De repente tudo fica diferente, se entendem o que digo. Vai chegando o dia em que a gente deve finalmente parar e pensar em algo novo. É quando Deus vira a página e começa a escrever um novo capítulo. Nem sempre tão bonito quanto o anterior, mas Ele sabe o que faz.
Todos se foram, exceto minha filha, que prometeu que ficar por aqui até o fim, mesmo eu preferindo que ela passasse um tempo na casa de uma tia que vive longe.
Se às vezes um empregado antigo me visita, fica dizendo coisas sobre precisarmos sair daqui e tentar um novo rumo. Mas como eu poderia sair daqui? Minha vida toda está do lado de cá desses cercados. Até penso que viveria menos. Sabem como são os peixes fora da água! Além do mais, tenho compromissos que me mantêm aqui, enraizado. Dívidas que muitas vezes temos conosco.
Antes, um rapaz se oferecia para alguns afazeres, desde que eu lhe desse uns trocados. Depois ele não veio mais, dizendo que este lugar lhe dava medo. Não pude me indignar com o coitado. Afinal, não é qualquer um que se entrega a uma missão como a minha. Deus escolhe seus semeadores, para que melhor floresça o campo.
Porém, não sei que tipo de pensamento me faz manter as luzes apagadas, quando os dias vão chegando ao fim e as tardes caminham para a noite. Só um toco de vela nos acompanha, quando nos deslocamos pela casa.
Às vezes acordo pela madrugada e me deparo com dois olhos vermelhos na janela e uma respiração pesada embaçando o vidro. Me levanto, num salto. E vejo que minha mente cansada me pregou mais uma peça. Isso vem me acontecendo muito, ultimamente.
20 de novembro de 2007
Ontem despertei no meio da madrugada, ouvindo um movimento do lado de fora... O vulto visto daqui era de uma pessoa. Caminhava sorrateiramente em direção ao galpão... Parecia carregar algo por uma alça. A vegetação alta roçava no recipiente, produzindo um som de raspar que dava para se ouvir daqui.
Mandei Paty voltar para o quarto, peguei a machadinha ao lado da minha porta e saí. Fiz um contorno de modo que eu aparecesse por trás do invasor.
A certa distância consegui reconhecer o desgraçado do João Grande, no momento que ele começava a espalhar o querosene nas laterais de madeira, nas quais eu tinha dado outra mão de tinta, antes do mato começar a cercá-las.
Tive de admitir que a mesma ideia que passou pela cabeça dele, às vezes, passava pela minha, desde que um novo ciclo se estabeleceu por aqui… Tive de admitir, é verdade. Mas não tão cedo! Afinal, João Grande nunca teve esse direito!
Quando ele percebeu minha sombra se alongando ao seu lado, se voltou no exato momento em que a machadinha se cravou no alto da sua testa. Caiu com os olhos revirados, as mãos agitando-se, o sangue jorrando em borbotões das narinas, ouvidos, olhos e boca.
O cheiro enjoativo se misturou ao cheiro do querosene derramado, enquanto eu esquartejava aquele homenzinho em meio à relva alta que se balançava em volta do galpão... Um vento suave agora batia nas laterais... As portas altas estremeciam num baque... Lá dentro o monstro bufava, ansioso, como se tivesse reconhecido o cheiro do sangue…
FIM