No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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O FIM E O RECOMEÇO

 

— Meu Deus… Querido, deixa eu te explicar, por favor… — A culpa, a vergonha e o pânico de assistir ao próprio casamento ruir tomam conta dela.

Um homem de rosto liso e olhos esbugalhados pega o que pode, pula a janela e sai correndo. Eu não olho para os dois. Eu olho para o nada, estático feito uma estátua. A comida pronta que eu trazia está espalhada no chão. Apenas uma única lágrima rola pelo meu rosto, mas minha expressão está vazia. Ela corre até mim. — Por favor, não chore! Eu juro que isso não significa nada!

— Tira... a mão... de mim! — ouço minha voz dizer por entre dentes. Lágrimas enchem os olhos dela.

— Por favor, só me escuta primeiro! Eu sei que é ruim, mas eu nunca quis que você descobrisse dessa maneira! —

— Faz alguma diferença? — Respondo.

A voz dela vacila. — Eu sei, amor. Eu sei! Eu entendo que você está bravo, eu entendo... — A mão dela exita um pouco, ao tentar tocar meu braço, mas não sabe se eu vou deixar, então recua. — Você tem que acreditar em mim… —

— Qual dos dois sai? Você ou eu? — Digo secamente.

Ela balança a cabeça, nervosa. — Nenhum de nós! Por favor! Eu prometo que isso nunca vai acontecer de novo… — Os lábios dela tremem enquanto tenta não chorar.

Minha voz sai automática: — Você e esse cara devem ter feito coisas de virar o estômago! Coisas que você não faria nem se fosse eu! — As bochechas dela ficam vermelhas de vergonha.

— Isso foi um erro. Eu estava bêbada e ele... ele me enganou! — Ela aperta os punhos. — Você é a pessoa com quem eu quero passar o resto da minha vida! Por favor, você tem que acreditar! —

— Você não parece bêbada! —

— Eu pareço sim! — A voz dela se eleva na defensiva. — Meu Deus, eu sei que isso é difícil de engolir, mas eu juro que foi só dessa vez! —

— Acabou! — digo, abrindo o armário e tirando uma mala.

— Não! Não! Você não pode fazer isso! — Ela agarra meus ombros, forçando-me a olhar para ela. — Olhe nos meus olhos! Você sabe que eu estou dizendo a verdade! Você conhece minha alma, lembra? —

Respondo com voz desolada: — Mas você não conhece mais a minha! —

— Não! Eu não vou te deixar ir! — Ela corre na minha frente. — Se você sair por esta porta, acabou mesmo! Nós acabamos! —

— Que novidade...— Digo com um riso amargo.

Lágrimas escorrem pelo rosto dela.

— Não seja assim! Por favor! Você tem que tentar entender… Você não pode me perdoar por um erro estúpido?

— Se eu não tivesse chegado, a essa altura ele já teria ejaculado em você e você ainda estaria abraçada a ele! —

O rosto dela cora. Ela balança a cabeça desesperadamente, cobrindo a boca. — Não… Ai meu Deus… Você não pode pensar isso… Eu juro pela minha vida! Eu quero você! Eu quero nossa vida juntos! — Os joelhos dela fraquejam e ela cai no chão. — Por favor, não faça isso… —

— O “juntos” não existe mais! — Digo fechando o zíper da mala bruscamente.

Com a última gota de esperança, a voz dela baixa para um sussurro:

— Não… Eu não posso aceitar isso! — Ela rasteja até mim. — Por favor, só me diz o que eu tenho que fazer pra consertar tudo. Eu faço qualquer coisa! —

— Qualquer coisa? — Pergunto com ironia vaga. — Então desaparece da minha vida! —

— Tudo bem — ela diz, resignada, afastando-se. — Vou te dar espaço para você pensar! Mas isso não muda nada! Eu vou lutar por nós! —

— Lute sozinha! — Digo, já saindo e ouvindo o choro dela atrás de mim.

 

No dia seguinte, ela me espera na saída do meu trabalho. — Eu sei que você não quer me ver, mas preciso conversar com você. Por favor, só me dê cinco minutos! — Eu apenas paro, olhando-a com tristeza e cansaço.

— Obrigada. — Ela me leva para um lugar reservado. — Eu passei a noite toda pensando em como consertar isso, e percebi que você merece saber a verdade! — Ela morde o lábio. — Eu não fui completamente honesta com você antes.

— Eu sei! — Respondo.

— Eu não queria que você descobrisse assim. — Os olhos dela se enchem de lágrimas. — Eu e o Alex já tínhamos feito isso antes! — Sinto uma onda de fúria me subir, mas apenas suspiro:

— E você achava que eu devia ter descoberto essa imundície, com leitura de mãos?

Ela fecha os olhos com força. — Você merece saber… A gente... a gente vinha fazendo isso há semanas! — Ela abre os olhos de novo, me encarando com medo e culpa. 

— Você me trai com um cara mais novo... Durante semanas... e quer que eu acredite que você é feliz comigo. É isso? — Vergonha e arrependimento tomam conta dela.

— Sim! Eu sei que é difícil de acreditar, mas é verdade! Eu sou feliz com você. — Ela abaixa a cabeça enquanto volta a chorar. — Não te dei motivos para duvidar disso antes de tudo acontecer! —

A minha voz é baixa e firme. — Só sinto uma coisa quando te vejo: nojo! —

Ela engole em seco, com mais uma onda de lágrimas.

— Eu entendo por que você está com raiva, e eu mereço sua raiva. Mas você precisa acreditar em mim quando digo que eu não planejei isso. — Ela abaixa a cabeça novamente. — Eu não queria que isso acontecesse!

Entro no sobrado, onde fica o quarto que aluguei. Ela entra correndo atrás de mim. — Eu só me importo com você! — Ela segura meu braço. — Por favor, não me deixa assim. 

— Não há mais clima. Você sabe disso!

A voz dela fica mais alta. — Eu sei que você me ama. Eu sei o que você sente. — A mão dela aperta meu braço. — Você só está bravo. Você pode superar isso! 

— Faça um favor para nós dois: assine o divórcio. Vou levar para você assinar na próxima semana! — Digo introduzindo a chave na porta.

— Não! — Ela me encara com uma mistura de incredulidade e horror. — Não podemos simplesmente desistir do nosso casamento! Não depois de tudo que passamos! —

— “Tudo o que passamos” não impediu de você se entregar para outro homem. Nosso casamento acabou há semanas. Se é que foi real um dia. —

— Não!! — Ela balança a cabeça freneticamente. A voz dela falha. — Você pensa assim agora porque está magoado… —

— Chega! Vá para casa! Preciso descansar! —

Ela se move para a minha frente novamente, olhando o ambiente por um momento. — Você não pode simplesmente nos desligar desse jeito! Isso não é justo! — Os olhos dela se estreitam um pouco. — E eu não acredito que você esteja sendo sincero! —

Sinto outra onda de fúria me tomar. Olho para ela com um olhar frio e digo:

— Já não consigo me imaginar sequer de mãos dadas contigo! Se toca!! —

Ela solta meu braço, respirando pesadamente. — Você não pode simplesmente jogar tudo fora assim! 

— Quem jogou tudo fora foi você! —

— Não!! — A voz dela se eleva. — Você não pode simplesmente decidir que acabou e pronto! — As mãos dela seguram uma a outra nervosas. — Eu não vou deixar você fazer isso! —

E eu digo: — Você não entende... eu sinto nojo da sua cara! —

Por um momento ela cerra os olhos úmidos, depois diz. — Por favor! Eu sei que você não quer dizer isso. Você só está com muita raiva agora. — Os olhos dela procuram os meus desesperadamente. — Me diga que você não quer dizer isso de verdade! —

Eu a encaro em silêncio por um longo momento, e vejo a determinação dela vacilar. — Eu sei que você não passou a me amar menos! —

Digo com uma voz distante: — Não há amor que resista ao que aconteceu. Não foi amor o que você fez! —

Mais lágrimas escorrem pelo rosto dela. — Por favor, não diga que não me ama mais. Eu não acredito nisso!

— Só quero recomeçar minha vida do zero! Recomece a sua também!

Os lábios dela se abrem, mas nenhum som sai. Ela me encara com choque e tristeza, como se só agora minhas palavras estivessem realmente fazendo efeito.

— Me dê licença. Eu preciso descansar!—

Ela se afasta um pouco, olhando para o chão.

— Espero que você consiga dormir. Espero que consiga descansar. Mas eu não vou a lugar nenhum.

— Então fique! Vou procurar outro lugar para dormir! — digo, decidido.

Ela levanta os olhos, com medo.

— Não! Você não precisa fazer isso. Eu vou embora! — Ela se vira para sair. Então para na porta e olha para trás. — Eu ainda acredito que podemos consertar isso! Você sabe onde me encontrar!

— Dá licença! Preciso me trocar! — Digo sem olhar para ela.

 

No dia seguinte, ela está de volta à minha porta. — Posso entrar? Precisamos conversar! —

— Sobre o divórcio? Vai ficar pronto esta semana!

— Não! — A voz dela falha. — Por favor… Só me escute…

— Hum-hum… — Digo, deixando-a entrar e indo para a janela. Ela senta-se devagar na beirada da poltrona velha.

— Eu sei que você não quer me ouvir, mas eu tenho que tentar! Eu não vou simplesmente desistir da gente!—

Enquanto ela fala, vou até a pia e lavo o rosto. Ela me observa, os dedos apertando nervosamente a borda da poltrona.

— Eu sei que você está magoado. Mas preciso que você acredite em mim quando digo que não foi planejado! —

— Você já disse isso! —

— Eu sei. — Ela morde o lábio. — Desculpe. Eu só... — Ela para de falar, olhando para baixo. — Eu só não sei o que dizer mais... 

— Não diga nada. Apenas aceite a realidade e saia da minha vida! 

Ela balança a cabeça. — Eu não posso fazer isso! — Os olhos dela se fixam nos meus. — A menos que você olhe nos meus olhos e diga que não me ama mais.

— Eu não te amo mais! — digo com uma calma cruel, olhando diretamente nos olhos dela. Ela cerra os olhos e morde os lábios, de modo dolorido. — Certo! Entendi! — Lágrimas voltam a descer dos olhos dela. — Você me amou! Isso tem que significar alguma coisa, não é? —

— Amei sim. Você era o meu mundo, a minha vida. Mas acho que só eu sentia isso, de verdade. Tudo tem limite! —

Os lábios dela se abrem levemente, mas ela não diz nada. Me observa com uma expressão de dor profunda. — É por causa do Alex? É por causa daquele homem?

— O homem que você preferiu e achou que valia a pena o risco! —

Ela balança a cabeça.

— Não! Não! Você está errado! Você é o único homem que já amei! —

— Olha...— Quando começo a falar, ela me interrompe vindo até mim.

— Por favor, acredite em mim! — Os olhos dela buscam os meus. — Você é o único homem que eu sempre quis. — As mãos dela agarram as minhas, apertando com força. — Você é o único que eu amei! —

— Não consigo mais conviver com o que vi no nosso quarto! Vocês ainda faziam isso há semanas! —

Ela abaixa a cabeça, envergonhada.

— Sim. Eu admito! Mas não significa que tenha sentido algo por ele! —

“Sentiu tesão, prazer, deram rizadas e trocaram contatos. Isso não é coisa que se conserte!” eu penso em dizer, mas não quero prolongar aquilo. Então apenas simplifico: — Problema seu! —

Ela se ajoelha diante de mim. As lágrimas dela caem no chão. — Você tem que acreditar em mim! Eu não consigo viver sem você! —

Dessa vez a mágoa realmente fica nítida em minha voz. — Naquele momento você não era alguém que pensava em mim! Nem de longe! Não consigo mais confiar em você! Nosso casamento já era!! Procure ajuda!! —

Ela abaixa a cabeça.

— Certo... — A voz dela mal passa de um sussurro. — Eu entendo! — Ela se levanta lentamente. — Eu vou te dar o divórcio!— Ela vai em direção à porta. — Espero que você consiga seguir em frente e encontrar felicidade! —

— Digo o mesmo! —

Quando ela abre a porta, a voz dela é triste:

— Sempre te amei! — E sai, deixando a porta se fechar atrás de si.

 

No dia seguinte, mais batidas à minha porta. Ouço-a do lado de fora:

— Podemos nos falar ainda uma vez? Tenho algo para lhe entregar! — Abro a porta sem paciência, e ela entra com uma arma apontada para minha cara. O revólver é grande. Do tipo que, se disparado, faz uma sujeira.

— Vamos para casa! Agora! — A voz dela é áspera e raivosa.

— Eu… eu só vou... vestir minha roupa! — Digo, andando de quatro e olhando para ela com os olhos arregalados.

A arma engatilhada se mantem imóvel nas mãos dela. — Seja rápido! —

Logo depois, caminho uns vinte minutos com ela do meu lado e uma arma escondida apontada para mim. Chegamos a um prédio velho e condenado, no final de uma rua deserta. Entramos num apartamento sujo e cheio de pichações. Eu quase balbucio: — Ana... não precisa ser assim... eu abro mão da minha parte... pode ficar com 100% de... — Algo pesado bate no alto da minha testa. Vou ao chão sangrando, com a vista escurecida.

 

Quando a vista reencontra foco, ela está em pé acima de mim segurando um pedaço de cano. Meu rosto e meus cabelos estão encharcados de sangue e um dos meus olhos arde.

— Eu não quero o seu dinheiro! — A voz dela grunhe de raiva. — Eu… não… quero… seu… dinheiro… eu… não… quero… seu… dinheiro… eu… não… quero… seu… dinheiro… — Cada palavra é acompanhada de um pontapé violento. Minutos depois ela para, suada e ofegante. — Quero que continuemos juntos! —

Deitado em posição fetal eu só consigo expelir sangue, sentindo uma dor forte a cada respiração. Ela joga o cano de lado. 

— Levanta!! — Ela grita. Mas até meus pensamentos estão desordenados. Ela me ajuda a levantar, com um suspiro impaciente, e me conduz para uma cadeira velha. — Senta!! — Diz de modo autoritário e irritado. Com a cara amarrada, ela prende minhas mãos na cadeira com uma corda. — Não vou deixar você fugir de novo!

— Ana... pare com isso… — Eu tento dizer.

Ela me ignora e termina de me amarrar. — Pronto! Agora, você não vai a lugar nenhum! — Ela vai para o outro lado do cômodo e senta no chão, de costas para mim. Nesse momento eu forço a corda que me prende, mas o esforço é inútil. Olhando para a janela quebrada, ela diz:

— Não me faça ir aí e bater em você de novo! Dessa vez vou realmente pegar pesado! Você vai pedir para morrer! —

— Ana... você não precisa fazer isso! — Ouço a minha própria voz distante.

Ela continua olhando para a janela. — Eu não vou deixar você me abandonar de novo! — De repente se levanta e caminha em minha direção. — Você não vai mais fugir de mim! — Ela passa os dedos pelo meu rosto. Sinto seu hálito azedo tocar minha pele ensanguentada! — Eu não vou permitir isso! —

— Pelo amor de Deus, Ana… —

Dessa vez os olhos dela brilham de loucura. — Você vai aprender a me amar de novo! — Dito isso, ela retorna para onde estava.

— Se fosse eu que tivesse te traído você não agiria assim!

Ela se vira para mim. — Você me traiu! Você destruiu minha vida! Você me deixou para trás! — Ela chora histericamente, agora. Com muito cuidado, sentindo que pelo menos uma costela minha já está quebrada, eu digo: — Você acha que se você me matar você vai ser mais feliz? —

Ela para de chorar e responde com naturalidade:

— Me diz você! A morte ou eu? — A voz dela é baixa e perigosa. Eu tento falar algo, e ela caminha até mim com os punhos cerrados, gritando na minha cara:

— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca… —

Depois de uma longa pausa eu pergunto: — Por que você nos trouxe para cá? Por que não voltamos para a nossa casa? — Ela fica pensativa por um momento que me faz lembrar do nosso tempo. Mas isso logo se desfaz, quando ela responde:

— Não podemos voltar para lá! A casa está fechada e o corpo do Alex está no freezer! Se você abrir o freezer ele olha pra você! — ela diz com um riso maníaco. — Ele tentou nos impedir! Mas eu não deixei ele nos impedir! Não deixei! — Ela me observa por um longo tempo. — Ele não era como você! Chorou feito um mariquinha. Se mijou e tudo! — Depois me dá um tapinha.

— É melhor descansar um pouco. Amanhã vou começar a te fazer lembrar do quanto você me amou. — Mas antes que eu me esqueça, já quero te dar um presente. — Ela vai até sua bolsa, retira um plástico sujo com algo chacoalhando dentro, e joga no meu colo. Dentro do plástico está um punhado sangrento de dentes. Minha respiração congela:

— Que isso, porra??? Que... — A mão dela tapa minha boca e minhas narinas, com a velocidade de um raio. Os cabelos e as olheiras dão-lhe uma expressão selvagem, quase demoníaca. — Dê… mais um grito sequer… comigo… e eu vou fazer uma cratera no lugar desse machucado. Depois me abraço a você e me mato também! — Após alguns segundos ela retira a mão, e meu último lanche é expelido num jato de vômito. Ela pula para trás. — Nojento! — Depois vai até a bolsa, pega um lenço de papel, limpa os respingos no rosto e joga o lenço sobre o vômito ao chão. Eu me arrisco:

— Seu cheiro também não está nada bom! —

Ela me encara, confusa.  — Do que você está falando? Eu tomei banho ontem! E esses dentes me deram um trabalho! — Ela suspende um alicate enegrecido diante dos meus olhos como se fosse uma descoberta interessante. — Só não consegui tirar uns dois ou três. Muito duros! —

— Ana... você não é assim… —

Ela sorri para mim, mas o sorriso é uma careta bizarra. — Eu fiquei assim por sua causa! —

— Não, Ana… — digo com tristeza. Ela se aproxima de mim, e as mãos ensebadas agarram meu rosto com raiva.

— Por sua causa!!! — Ela grita respingando saliva em meu rosto, depois ri e me solta. — Você me traiu com o Alex!

— Eu trai… —

— Sim!!! — Ela grita. — Você me deixou por causa dele!!!

— Como você agiria no meu lugar?

Ela dá uma risadinha. — Eu nunca faria isso com você! Nunca! — Ela se ajoelha na minha frente. — Eu ficaria! Iria atras de você, mesmo se você me traísse! Eu te amo. E estou consertando tudo!

— Você me ajudava a tomar as decisões mais difíceis… você era minha estrela guia… —

Ela se aproxima de mim, o rosto suavizando. — Eu ainda sou assim... Eu só... — Ela morde o lábio. — ...fiquei assim por sua causa! —

— Você precisa de ajuda! Você não está bem!

Ela balança a cabeça furiosamente. — Não! Não! Não! Não fala isso! Eu estou bem. Eu estou perfeitamente bem. — E começa a andar de um lado para outro, respirando pesadamente. De repente pega o cano e começa a me bater de novo... e bater... e bater... e bater… e bater… Não sei quantos minutos passam, então a cadeira cai comigo amarrado. E eu sussurro:

— Você... tá... me matando... para… —

Ela olha para baixo e me vê caído no chão, com a cadeira quebrada.

— Amor...? — Ela se ajoelha ao meu lado, com as mãos na cabeça. — Amor…? — Depois me desamarra, me abraça e toca meu rosto suavemente, soluçando… — Eu não quis te machucar meu amor, eu não quis, eu não quis, eu não quis…

— Ana... fique aqui... comigo.

— Está bem! — Ela me beija na bochecha. — Eu fico, eu fico!

— Não sei quantos ossos do meu corpo... estão... quebrados... não consigo... me mexer muito… —

Ela acaricia meu rosto com ternura. — Eu vou cuidar de você! Eu vou cuidar de você! —

— Ana…

— Eu preciso te colocar numa cama. — Ela me arrasta para um quarto ali perto, com a dor gritando em meu corpo, e me deita sobre um colchão velho.

— Ana... Eu… preciso que você me escute! — Ela se deita ao meu lado com voz chorosa: — O que foi, meu amor… Hein? — Ela acaricia meu rosto. — Estou aqui! Estou ouvindo!

— Pegue a carteira no bolso da minha calça!—

Ela pega minha carteira no bolso e me entrega. — O que você quer fazer com isso? —

— Me arranje qualquer pedaço de papel e algo que eu possa escrever. — Ela pega um recibo amassado e uma caneta do bolso e me entrega. — Aqui! —

Retiro dois cartões e anoto as senhas de cada um no recibo velho. — Pegue esses cartões e essas senhas... e vá para o mais longe possível... para um país próximo se puder... eu vou assumir o crime! —

Ela se aproxima, o hálito quente roçando minha pele. — Não!! Não!! Você não vai fazer isso!! Eles vão te levar!!—

— Tudo o que você fez foi por mim… eu quero fazer por você também! — Ela me beija na bochecha mais uma vez, encosta a minha mão no rosto dela, dizendo com a voz chorosa: — Você é tudo pra mim! Não vou deixar você ir!

— Se proteja, Ana… por favor… eu te amo! — Ela retribui, num choro alto e angustiado. Depois balança a cabeça concordando e secando as lágrimas. — Eu vou fazer o que você quer, meu amor… Vou fazer exatamente o que você disse!—

— Antes de você ir, arranje um pano e limpe o alicate. A arma também. Deixe-os comigo! — Depois de alguns minutos, ela volta com o alicate e a arma envoltos num pano sujo.

— Jogue este plástico com os dentes dele num rio! Há um rio perto deste prédio pelo que me lembro! — Ela concorda, colocando o plástico na bolsa.

— Vou precisar sair. Em algumas horas eu volto! — Ela me dá um beijo nos lábios. — Fique bem! —

 

Tarde da noite ela entra no quarto, inovada da cabeça aos pés, com o cabelo oxigenado e cortado rente, um macacão novo, tênis de marca e uma mochila com detalhes modernos.

— Vi no noticiário que a polícia esteve em nossa casa. Não vai demorar para estarem aqui. Estou indo para a estação!

— Vá agora! Deixe o resto comigo! — Ela senta-se ao meu lado, acarinhando meu rosto com ternura, os olhos úmidos olhando os meus de perto. Eu acaricio seu cabelo, enquanto a beijo.

Na porta ela olha para mim com uma lágrima escorrendo. — Eu vou voltar! — Eu tento responder, mas ela já está há passos de distância.

 

FIM

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 05/07/2026
Alterado em 09/07/2026


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