O AMANHECER ANTIGO
Num remoto amanhecer ceifamos nosso trigo…
O sol ainda tateava o horizonte com dedos de âmbar
e o orvalho nos molhava os pés como uma promessa da terra…
Éramos o ciclo e o silêncio da colheita.
Dividíamos o peso dos feixes e o cansaço dos braços.
O vento trazia cheiro de palha e de tempo guardado,
e a vida parecia caber inteira entre os dedos.
A luz crescia e o campo se despia do seu ouro.
Deixávamos para trás apenas a marca dos nossos passos,
guardávamos o sustento para os meses de cinza
e guardávamos nas palmas a memória do trigo que foi nosso,
naquele tempo em que o mundo era apenas a terra e nós…