
O APARTAMENTO AO LADO
O sobrado era antigo e de um verde desbotado. Ficava num ponto afastado. Um trecho que a cidade parecia ter esquecido e que parecia ter parado no tempo.
O andar era dividido em dois apartamentos, por uma parede fina. Fina o suficiente para deixar escapar até coisas que não deveriam ser ouvidas.
Os inquilinos passavam por aquele imóvel sem permanecer por muito tempo.
Mesmo assim, sempre aparecia alguém disposto a ignorar boatos, por aluguel barato.
Foi exatamente assim que Rodriguez o alugou.
O preço era baixo e o local parecia afastado de tudo.
O corretor sorriu de um jeito estranho quando lhe entregou as chaves.
— Seja bem-vindo. O vizinho é um pouco reservado. Só isso!
Foi embora sem acrescentar mais nada.
Rodriguez observou o sobrado por alguns instantes, respirou fundo e entrou carregando as malas.
O papel de parede desbotado, o chão de tacos gastos e os interruptores de porcelana davam a impressão de que ninguém havia mudado uma única peça por ali, desde os anos setenta.
Havia um cheiro de madeira antiga e verniz envelhecido que nem as janelas abertas resolviam.
Mas o espaço parecia razoável para o que precisava.
Na segunda noite, percebeu que o apartamento ao lado permanecia escuro.
Nenhuma janela se abria.
Nenhuma porta rangia.
Nenhuma cadeira era arrastada.
“O vizinho é reservado!” Havia dito o corretor.
Mas era como se não houvesse ninguém no outro apartamento.
Certa noite, porém, algo aconteceu.
Às 23h48 julgou ouvir alguém caminhar no outro lado.
Passos lentos…
Indefinidos…
Ficou imóvel na cama, tentando distinguir se eram apenas tábuas antigas estalando ou realmente alguém andando com cuidado. Depois de alguns minutos, o silêncio voltou a dominar.
As noites seguintes não foram diferentes.
Quando achou que a rotina não passaria disso, vieram as batidas…
Uma…
Duas…
Três…
Exatamente da parede.
Então Rodriguez se levantou e bateu de volta, sem saber porquê.
O silêncio que se seguiu durou tanto que Rodriguez chegou a acreditar que a mente lhe pregara peças.
Logo, veio o sussurro:
“Obrigado por responder!”
Ele congelou. A voz do outro lado era baixa, porém, fria e ressoante.
Chegou a senti-la atravessar a parede.
Recuou alguns passos e caiu sentado no chão.
Na manhã seguinte, perguntou a alguns moradores da rua quem vivia no apartamento ao lado.
Ninguém soube dizer um nome.
— Ele só sai depois que escurece! — respondeu uma senhora menos esquisita, desviando o olhar.
Rodriguez procurou o proprietário do imóvel.
O homem empalideceu.
— Se ouvir alguém lhe chamar durante a madrugada... não responda!
Foi a única coisa que disse antes de encerrar a conversa.
Naquela noite, ao se recolher, Rodriguez conferiu portas e janelas. Fez isso várias vezes.
O apartamento mergulhou na escuridão.
Então veio o cheiro. Não só de madeira antiga e verniz velho.
Lembrava ferro.
Carne estragada.
Terra recém-revirada.
E os passos do outro lado…
Embora o apartamento vizinho fosse pequeno, aqueles passos pareciam medir grande distância.
De outra vez, houve um som de arranhado no lado de fora da porta.
Longo.
Como se alguém soubesse que o medo é melhor quando servido devagar.
Na manhã seguinte, encontrou algo no tapete da entrada.
Uma folha manchada, envelhecida.
Escrita numa tinta escura, borrada, havia apenas uma frase:
"Você cheira a solidão!"
Não tinha assinatura.
Apenas uma única gota de sangue seco.
Decidiu instalar uma câmera apontada para o corredor.
Mais tarde, às 23h59, viu a porta do apartamento vizinho se abrir lentamente.
Primeiro surgiu uma mão…
Branca como cera.
Os dedos eram compridos.
As unhas grandes.
Depois veio o restante do corpo.
O sujeito era alto.
Quase desengonçado.
Vestia um traje preto, antiquado, com uma capa.
Nenhum reflexo aparecia no espelho do corredor.
Às 4h12, a figura voltou.
Parecia diferente. Mais jovem.
As mãos estavam sujas.
Antes de entrar, parou…
Ergueu lentamente a cabeça e olhou direto para a câmera…
O rosto era branco como as mãos.
Os olhos enrugados e de um castanho seco.
Então abriu a boca…
Muito além do possível…
A mandíbula desceu até o peito.
Não havia língua. Apenas duas presas enormes: uma descendo da mandíbula superior e outra subindo da inferior.
Depois disso, Rodriguez não lembrava se o vizinho havia entrado no apartamento... ou simplesmente desaparecido diante da porta.
Chamou a polícia.
Quando os agentes arrombaram o apartamento vizinho, encontraram tudo coberto por poeira.
Os móveis tinham décadas.
As paredes eram velhas, descascadas. Ainda com um pouco da cor original.
No centro da sala havia um caixão apodrecido, com uma corrente enferrujada caída ao lado.
Vazio. Com marcas assustadoras riscando seu interior.
Uma pilha de recortes amarelados jazia num canto.
Todos noticiando crimes hediondos.
Os mais antigos tinham palavras arcaicas e se desmanchavam.
Mesmo assim um policial comentou que o imóvel estava abandonado havia mais de cinquenta anos.
Rodriguez mostrou as gravações.
Os vídeos estavam completamente pretos. Exceto por alguns lampejos que nada mostravam.
Naquela noite, chovia forte.
Relampejava.
Do outro lado a voz o chamou pelo nome.
Pelo nome…
Levantou-se num salto e começou a fazer as malas.
O vento fazia os vidros tremerem, como se a tempestade insistisse em mantê-lo ali.
Ouviu novamente as batidas.
Desta vez era como se viessem de dentro do armário.
O coração disparou.
Antes que pudesse recuar um passo as luzes se apagaram.
Quando voltaram, a mala permanecia aberta sobre a cama.
As roupas espelhadas pelo chão.
Rodriguez não estava mais ali.
Dias depois, um novo morador alugou o sobrado.
O corretor entregou as chaves com o mesmo sorriso discreto.
— O vizinho é muito reservado. Só isso!
FIM