
A Boca De Ferro
A cidade jurava que o bueiro era mais velho que o próprio asfalto.
Era uma tampa de ferro escurecida pelo tempo, sem inscrição, sem marca fabricante, sem data. Ficava na Rua das Acácias, bem no centro de um cruzamento abandonado que, décadas antes, fora um bairro movimentado. Hoje, por algum motivo encoberto, restavam apenas casas vazias, janelas cegas e o silêncio.
Os mais velhos do bairro diziam que a cidade havia sido construída sobre outra cidade. Antes dela, outra. E antes de qualquer pedra assentada por mãos humanas, já existia um buraco.
Com o tempo, foi fechado com uma tampa de ferro fundido. Depois, outras ruas, outras gerações, outros nomes surgiram ao redor. Mas toda prisão envelhece. E todo cárcere enferruja.
André era fotógrafo especializado em lugares abandonados. Passava noites explorando fábricas, hospitais e galerias subterrâneas. Seu canal na internet era conhecido justamente por nunca recorrer a montagens.
Quando um seguidor enviou a localização de um bueiro "que fazia gente desaparecer", ele sorriu.
Era exatamente o tipo de história que atraía milhões de visualizações.
Chegou ao local pouco antes da meia-noite.
Claro que a rua estava deserta e sem postes funcionando.
O único som era o de gotas caindo de uma chuva que terminara horas antes.
No centro da rua repousava a tampa circular completamente coberta por ferrugem negra.
No metal havia apenas um desenho.
Um círculo formado por dezenas de olhos.
André passou a mão sobre o relevo.
Os olhos pareciam acompanhar seus dedos.
"Ilusão de ótica", pensou.
Foi a última explicação racional que encontrou naquela noite.
Primeiro, passou um dos rádios ao parceiro que permaneceria do lado de fora.
Depois verificou como a tampa era pesada.
Pesada demais.
Mesmo usando uma alavanca de aço, exigiu quase toda a força dos dois para movê-la poucos centímetros.
Quando finalmente conseguiu deslocá-la, esperava encontrar o odor familiar de esgoto.
Em vez disso...
Sentiu um ar subir das profundezas, com cheiro de terra úmida e algo muito antigo.
O medidor de gases não registrou nada.
O oxigênio estava normal.
Mesmo assim, havia algo estranho.
Desceu com a lanterna presa ao capacete.
Os primeiros metros pareciam comuns.
Tubulações antigas.
Concreto rachado.
Raízes atravessando as paredes…
A lanterna rasgava uma frágil faixa de luz na escuridão que se estendia.
Seguiu por um declive ladeado por paredes velhas.
Ao longo do trajeto se deparou com ossos de animais cobertos de limo e com outros detalhes que tornavam cada vez mais difícil acreditar que aquilo fosse uma galeria de esgoto.
A descida era marcada por uma grande curva. Só algum tempo depois, tomado por uma louca agitação, pegou o rádio e, sem saber porquê, murmurou: “é uma espiral…”
Do outro lado o colega indagou: - Está tudo bem? André? -
Ainda com o rádio na mão, respondeu que sim, e prosseguiu.
Naquele ponto as paredes pareciam mais altas…
O facho dava impressão de não alcançar o teto…
E após se ver diante de um portal de aparência insólita, seu coração realmente deu um salto ao se deparar com outro lance de degraus que iam sumindo de vista na escuridão… Eram blocos de pedra enegrecida, nada semelhante aos padrões comuns. Pareciam já existir muito antes do sistema subterrâneo construído ao redor.
O rádio chiou.
— André? Tem certeza de que está bem? Você está muito quieto!
Ele levou o aparelho à boca, novamente, e disse de maneira distante, que estava bem.
Mas não estava concentrado no colega muitos metros acima.
Seu coração estava acelerado.
A lanterna iluminava um corredor cuja escuridão agora tornava sua luz quase inútil.
Só algum tempo depois percebeu que o chão desta vez era plano.
Passou por algumas bifurcações que lhe provocavam mais ainda uma insana curiosidade.
As paredes eram de pedra polida, com símbolos que André mal chegou a observar. Talvez fosse melhor assim. Do contrário geraria mais perguntas. Perguntas que talvez mentes humanas não pudessem responder.
Lembravam vestígios de civilizações perdidas. Mas ao mesmo tempo havia algo perturbador, uma sensação de coisas que simplesmente não deveriam existir ali.
Depois de mais alguns metros, ouviu o som…
Primeiro distante.
Depois mais próximo.
Tic... tic... tic... tic... tic...
André direcionou a luz.
Nada.
O barulho parou, como se houvesse certa hesitação.
Ou como se detectasse medo.
Depois de uma pausa longa, recomeçou.
Finalmente conseguia distinguir algo grande tomando forma.
A ansiedade distorcia um pouco a percepção, mas não o suficiente para deixar de ver diversos pontos vermelhos como rubis.
As patas tocavam o chão de pedra, produzindo o som que ele havia escutado.
Havia também um som gotejante, seguido por um cheiro semelhante ao de amônia.
Então correu.
O som dos movimentos da criatura parecia ressoar no chão, nas paredes e no teto ao mesmo tempo.
Mas ela não corria atrás dele.
Apenas o acompanhava.
Como se soubesse que os próprios corredores o levariam de volta à ela.
Cada curva parecia conduzir ao mesmo lugar.
As mesmas paredes.
As mesmas rachaduras.
Ou talvez não fossem as mesmas. Já não conseguia ter certeza.
Em algum momento percebeu algo terrível.
Os casulos.
Primeiro um…
Depois outro…
Cada um deles com algo hediondo em seu interior.
A criatura reapareceu como se já estivesse por perto.
Ocupava toda a passagem.
O vulto com diversos olhos brilhantes ergueu parte do corpo.
O lugar inteiro pareceu pequeno diante dele.
Então...
Num impulso desesperado, André disparou o sinalizador de emergência contra a coisa.
A luz vermelha incendiou o corredor.
A criatura recuou.
Um grito impossível percorreu os túneis.
Não era um som.
Era uma sensação.
André aproveitou e correu.
A tensão fizera com que deixasse cair algumas coisas até chegar ali: O celular sem sinal, a prancheta, o medidor e, por fim, o próprio rádio. Reconhecer esses objetos espalhados pelo trajeto, somado à experiência de anos como explorador, foi o que o impediu de se perder para sempre naquela escuridão remota.
Mas nos últimos segundos, o disparo do sinalizador permitira ver algo mais do que já havia visto…
Duas antenas avermelhadas se movendo loucamente, semelhantes às de uma grotesca centopéia… Várias mandíbulas que se abriam em direções diferentes, pingando uma coisa viscosa.
No centro delas havia outra boca repleta de dentes finos.
E dentro daquela...
Uma terceira…
E não olhou mais.
Saltou para fora do bueiro, pálido, com os olhos alucinados, sujo da cabeça aos pés.
Depois...
Silêncio.
Quando o parceiro correu até ele, André apenas apontava para a tampa, balbuciando com um fio de saliva: “Gases... gases venenosos...”
E não falou mais sobre o ocorrido.
Entregou o apartamento onde morava, com uma sensação constante o perseguindo.
Mudou de cidade.
Nunca mais voltou.
Anos mais tarde, a Rua entrou em obras. Seria a construção de um viaduto.
Escavadeiras removeram quantidades de concreto.
Depois, o projeto do viaduto foi abandonado.
Os operários juravam ouvir algo abaixo da velha tampa de ferro. Outros afirmaram sentir um cheiro “tóxico”. Como se alguma substância perigosa não fosse para ser mexida.
Depois dois adoeceram.
E a pesada tampa continuou intacta.
Esperando que alguém, um dia, volte a levantá-la.
Porque criaturas antigas não precisam sair para caçar.
Basta esperar que a curiosidade humana abra a porta mais uma vez.
FIM