
O QUADRO NA CASA VAZIA
A casa estava vazia havia anos.
Ficava no fim de uma rua quase esquecida, onde as últimas casas se afastavam umas das outras e o asfalto terminava em uma faixa irregular de terra.
Os mais velhos contavam que fora construída por uma gente estranha, vinda de longe.
Anos depois, sumiram…
E o sumiço só foi percebido quando o abandono começou a dar seus sinais no jardim…
Logo, não havia mais vestígio de que alguém tivesse vivido ali.
Com uma única exceção.
Um quadro.
Ficava na parede da sala, exatamente em frente à porta de entrada.
Ninguém sabia quem era a mulher retratada.
Daniel viu a casa pela primeira vez numa tarde de novembro, quando o caminhão da imobiliária parou diante do portão enferrujado.
— É essa aqui — disse o corretor.
Daniel olhou para a fachada.
A casa era grande, de dois andares, com paredes desbotadas e um telhado enegrecido. As janelas estavam intactas, mas tão sujas que pareciam ter sido pintadas de cinza. O jardim havia desaparecido sob uma onda de vegetação daninha.
— Está vazia há quanto tempo?
O corretor consultou algumas folhas.
— Vinte e oito anos.
— E ninguém procurou morar aqui durante esse tempo?
O homem hesitou.
— Não.
Daniel percebeu a hesitação.
— Por quê?
O corretor sorriu. Um sorriso pequeno, profissional.
— Problemas de documentação.
Daniel não insistiu.
Precisava de uma casa barata.
Precisava se distanciar.
E aquela casa custava menos do que um apartamento de dois quartos.
Foi isso que decidiu tudo.
Ao girar a chave sentiu primeiro o cheiro.
Como o cheiro de uma gaveta fechada durante décadas.
O corretor abriu as janelas da sala.
A luz da tarde entrou devagar, revelando partículas de poeira suspensas no ar.
— Está vendo? — disse ele. — Com uma boa limpeza… —
Daniel não respondeu. Estava olhando para o quadro.
Era grande. Do tipo comum de se ver em ambientes de luxo.
Sem plaqueta na moldura.
Nenhuma assinatura no canto da tela.
A mulher retratada aparentava ter cerca de trinta anos.
Era bonita, mas não de maneira comum.
Tinha cabelos negros, compridos, presos atrás da cabeça. Vestia um vestido azul-escuro, antigo, fechado até o pescoço.
A pele era muito branca.
Os olhos eram quase cor de violeta.
Olhavam em direção à entrada.
Daniel aproximou-se.
A pintura parecia esquisitamente recente.
Tão detalhada que ele conseguia distinguir pequenas linhas ao redor dos olhos da mulher.
Uma pessoa real poderia ter sido usada como modelo.
— Quem é ela?
O corretor ficou atrás dele.
— Não sei.
— O quadro vem com a casa?
— Pelo que sei, sim. Ninguém nunca mexeu. Sempre esteve aí!
Daniel sorriu.
— Então vou ter de ficar com ela.
O corretor não sorriu de volta.
No dia seguinte Daniel voltou sozinho e estacionou a caminhonete diante do portão.
Ficou alguns segundos olhando.
Saiu do carro com a chave que o corretor lhe entregou.
Abriu o portão.
O ferro rangeu.
O som pareceu atravessar o jardim.
Ao abrir a porta, o silêncio o abraçou de imediato.
— Olá?
Sua voz ecoou de volta:
“Olá…”
Daniel sorriu.
— Idiota.
Acendeu a luz.
Nada aconteceu.
A lâmpada demorou alguns segundos para iluminar o ambiente cinzento.
Tudo vazio, obviamente.
Exceto por ele e pelo quadro.
Daniel o contemplou outra vez.
A mulher olhava diretamente para quem estivesse diante da moldura.
Se a pessoa se afastasse, ela olhava para a entrada.
Aproximou-se.
— Quem é você?
A pergunta saiu sem que ele pretendesse fazê-la.
Só o eco da sua voz respondeu.
Sorriu e afastou-se.
Depois, levou apenas algumas coisas para dentro da casa.
Uma mala.
Uma cama desmontável.
Uma caixa de livros.
Um colchão.
Uma poltrona velha e uma televisão portátil.
Não queria trazer muita coisa, por ora.
O preço parecia um presente, mas a casa era enorme para uma pessoa sozinha.
Ainda iria decidir.
Montou a cama no quarto do andar superior.
Colocou a televisão e a poltrona na sala.
Deixou a mala aberta e esquecida num canto.
Como se soubesse que três dias depois estaria saindo às pressas pela porta principal, deixando tudo para trás.
Às onze da noite, tomou banho.
À meia-noite, se deitou e fechou os olhos.
Adormeceu.
Acordou às três e dez da manhã.
Não sabia por quê.
Então ouviu um ruído furtivo no andar de baixo.
Esperou.
Outro ruído.
Depois outro.
Sentou-se na cama.
Seu primeiro pensamento foi que havia esquecido de trancar a porta.
Levantou-se.
Procurou o celular. Não havia sinal. Franziu a testa.
Desceu, e a sala estava quieta.
A porta da frente permanecia trancada.
Acendeu a luz e ficou parado.
Olhou para o quadro…
A mulher não estava mais olhando para a porta.
Havia um brilho sinistramente pessoal nos olhos dela.
Tinha a impressão de que olhavam para ele.
Daniel sentiu um frio atravessar o corpo.
Aproximou-se.
E a pintura continuava exatamente como antes.
Os olhos estavam voltados para a entrada.
Tocou a tela.
Fria.
Muito fria.
Depois tentou mexer na moldura se lembrando das palavras do corretor.
Impossível de mover. Parecia realmente um detalhe da própria parede.
— Não.
Disse em voz alta.
Como se estivesse repreendendo a si mesmo.
— Não vou começar com isso.
Voltou para o quarto.
Não dormiu.
Na manhã seguinte, desceu lentamente.
Olhou para fora.
O vento soprava o jardim esquecido.
O portão estava fechado.
Trancou a porta e olhou a sala.
A mulher do quadro continuava olhando para a entrada.
A luz das janelas a iluminava do pescoço para baixo.
Daniel ficou diante dela.
— Você não estava olhando para mim ontem.
Deu um passo para trás.
— Eu sei que não estava.
A mulher sorriu.
Quase nada.
Se os lábios se moveram, foi apenas um milímetro.
Mas bastou.
Naquela noite, decidiu dormir na poltrona.
Como se isso trouxesse mais sanidade às coisas.
Deixou a televisão ligada.
O som preenchia a sala.
Uma voz qualquer falava sobre a previsão do tempo.
E adormeceu.
Acordou às três e dezessete.
Desligou a televisão e permaneceu na sala.
Apenas a fraca luz de fora batia nas janelas.
Então ouviu.
Tic…
Um pequeno ruído.
Tic…
Outro.
Tic…
O som vinha da parede.
Ele se levantou.
Aproximou-se.
Colocou o ouvido contra a madeira.
Esperou.
Então ouviu um som raspante.
Afastou-se e olhou para o quadro.
A mulher mais uma vez estava olhando para ele.
Sentiu uma gota de suor escorrer pela testa.
Uma fina camada de poeira caiu da moldura.
Então ouviu um som por trás da pintura.
Parecia um suspiro.
Daniel não se mexeu.
Dessa vez, teve certeza de que a mulher do quadro sorriu levemente.
Correu em direção à porta.
Estava trancada.
Havia deixado a chave no andar de cima.
— Não, não, não…
Fez uma pausa. Respirou fundo e ligou o interruptor.
Ao procurar o celular no bolso, houve um barulho que fez seu coração saltar.
O quadro havia se soltado da parede e caído de lado.
Naquela posição, a expressão da mulher parecia nitidamente zombeteira.
Não havia sinais, nem de pregos, nem de cola.
Nada que pudesse segurar a moldura onde estava.
Em vez disso, havia uma porta.
Uma porta menor.
Do tamanho de uma janela.
Daniel sentiu o sangue desaparecer do rosto.
O quadro escondia algo durante todo o tempo que ficara ali.
A porta não tinha maçaneta nem fechadura.
A madeira estava marcada pelo tempo. Mas havia um símbolo entalhado.
Aparentemente decorativo.
Aproximou o ouvido.
— Tem alguém aí?
Não houve resposta.
Ele olhou para a porta principal atrás de si.
E olhou novamente para a porta menor.
Deu dois passos para trás, tentando entender aquele arabesco.
De repente, quase deixou o celular cair.
A pequena porta foi se abrindo lenta e silenciosamente.
Atrás dela só havia escuridão.
Aproximou-se trêmulo, o coração batendo com força.
Ficou na ponta dos pés e olhou com cuidado para o interior.
A primeira coisa que viu foi um relance de paredes velhas.
Muitas teias.
E o cheiro.
Terra molhada.
E algo doce como frutas deixadas durante meses dentro de um armário.
Arrastou a poltrona até perto, subiu sobre ela e acendeu a lanterna do celular.
A luz iluminou algo preso nas teias.
Ossos.
Ossos amarelados…
De ratazanas, gambás e outros pequenos animais.
Em certo ponto, quase engolido pela sombra, viu algo que podia ser um livro.
Grande.
Fora dos padrões comuns.
Inchado pela umidade.
De onde estava, não conseguiu distinguir com clareza o desenho na capa.
Mas pôde ver ossos maiores em volta dele. E outros mais sumindo na escuridão.
Foi quando ouviu o som com mais nitidez:
Tic…
Tic…
Tic…
Alguma coisa estava vindo.
Ao tentar recuar, caiu da poltrona e bateu a cabeça.
Prestes a perder os sentidos, viu uma perna surgir.
Comprida.
Articulada.
Coberta de pelos úmidos.
Depois outra.
E outra.
Mesmo com a cabeça girando, Daniel sentiu os músculos do rosto tremerem.
A criatura que surgiu da escuridão desafiava todos os padrões naturais.
Onde deveria haver a cabeça de uma aranha, havia um busto humano.
O da mulher do quadro.
A pele cinzenta, enrugada.
Cabelos sujos e com pedaços de teia.
Um olho esbranquiçado, sem retina.
A boca, porém, não era humana. Era um conjunto de coisas que se mexiam.
Tudo aconteceu em segundos…
A criatura saltou para o chão e deu um passo vacilante em sua direção.
Daniel tentou se levantar e escorregou , com saliva descendo e uma expressão enlouquecida no rosto.
Num ato instintivo e desesperado, atirou o cordão rebentado e o crucifixo contra a coisa.
Um som áspero encheu a sala.
O som o acompanhou, quando a escuridão total o envolveu.
Levantou-se num pulo.
A cabeça doía, latejava.
Olhou para todos os lados, assustado.
As luzes da manhã varavam as vidraças sujas.
A casa estava do jeito como havia estado há 28 anos, exceto pela presença dele.
O mesmo silêncio.
O mesmo quadro na parede, com aquele misterioso vestígio de sorriso.
Algo feito para intrigar.
E atrair.
Mas havia um detalhe diferente.
No fundo da pintura, meio ensombrecida, podia jurar que havia uma aranha minúscula num canto de parede. O detalhe não existia mais.
E percebeu outra coisa…
Uma teia fina saía da moldura e terminava sobre seu ombro.
FIM