
CHÃO DAS FIGUEIRAS
A praça existia muito antes da pequena cidade…
Os mapas mais antigos mostravam apenas um círculo de pedras na parte principal, onde hoje havia figueiras centenárias. Quando as primeiras casas foram construídas ao redor, ninguém ousou remover o velho nicho de pedra erguido exatamente no centro.
Era uma estrutura simples, feita de blocos escurecidos pelo tempo.
Dentro dela permanecia um corpo ressequido e de pé.
A cabeça baixa, as mãos cruzadas sobre o ventre e os longos cabelos grisalhos caindo como fios de palha seca.
As mãos não pareciam repousar ali por acaso. Os dedos estavam entrelaçados de forma incomum, formando um antigo sinal cuja origem ninguém conhecia.
O mais inquietante era que, apesar dos séculos, a rigidez daquela posição permanecia perfeita, como se nem a morte tivesse sido capaz de desfazer o último gesto da mulher.
Ninguém sabia seu nome.
Ninguém sabia há quanto tempo estava ali.
O corpo desafiava qualquer explicação conhecida.
Não havia sinais de embalsamamento, resinas, sais ou qualquer substância capaz de preservá-lo.
Ainda assim, a pele permanecia aderida aos ossos, os cabelos continuavam presos ao couro cabeludo e as unhas conservavam um brilho opaco, como se o tempo tivesse desistido de consumi-la.
Alguns estimavam que aqueles restos atravessassem três ou quatro séculos. Outros preferiam não arriscar uma data.
Afinal, quanto mais se estudava o corpo, menos ele parecia obedecer às leis da morte.
Não era uma atração. Exceto o povo local, acreditava-se que poucos no mundo soubessem da sua existência.
E os moradores simplesmente o evitavam, cruzando a praça em passos rápidos, sem deter o olhar naquela pequena e austera construção. E se algum visitante curioso perguntasse, recebia apenas um olhar calado e um aviso mudo.
Miguel não acreditava em histórias antigas.
Professor de História, havia voltado à cidade natal para catalogar documentos esquecidos na igreja. As lendas lhe pareciam uma mistura de medo, ignorância e tradição.
Mesmo assim, continuou vasculhando cada canto da capela desativada. Examinou espaços vazios, pedras soltas e tábuas apodrecidas, movido mais pela curiosidade do que pela crença.
Até encontrar um manuscrito escondido sob o altar…
Datado de 1689. Algo sobre o qual até os mais antigos da cidade pareciam ignorar.
Os líderes do povoado confessavam não possuir meios para matar a mulher acusada de feitiçaria.
Ela havia sobrevivido ao fogo.
À forca.
Ao afogamento.
À lâmina.
Então aceitaram a proposta dela.
Construiriam um nicho de pedra bem sobre o ponto onde ela realizava seus rituais.
Ela permaneceria ali.
Ao final do documento havia uma única frase escrita com tinta borrada, escura.
"Não a libertem antes que a coisa da escuridão desperte."
Naquela noite, Miguel voltou à praça.
Convenceu-se de que o medo coletivo alimentava a superstição, e que só havia um modo de encerrar de vez aquela história.
A lua cheia iluminava o nicho.
O corpo parecia pequeno demais para ocupar aquele espaço.
Seco como madeira antiga.
Mesmo assim, um cheiro de terra molhada escapava pelas grades.
Ao aproximar-se, percebeu algo que com certeza outros também haviam percebido. A múmia tinha seis dedos numa das mãos. Possivelmente um problema de nascença. E uma das causas das perseguições naqueles tempos sombrios.
Voltou, já com as fotografias no celular.
Uma de bem perto.
Outra mais de longe.
Também havia fotos de outros ângulos. Num dos quais havia uma gravação em latim, que mais tarde descobriria ser a mesma frase no final do documento.
Na madrugada seguinte, começaram os sonhos.
Miguel caminhava pela praça vazia enquanto centenas de mulheres de rostos ocultos formavam um círculo ao redor do nicho.
Nenhuma falava.
Todas costuravam alguma coisa com linhas feitas de cabelos humanos.
No centro, ouviu-se a voz de uma moça:
"As pedras estão cansadas!"
E o chão começou a se mover…
Nos dias seguintes, tudo continuou como sempre fora…
Pessoas às vezes enlouqueciam ou desapareciam.
Raízes surgiam no interior de algumas casas.
Um cão uivava todas as noites, sempre no mesmo horário.
Um homem foi encontrado dormindo coberto por folhas secas e murmurando palavras numa língua desconhecida.
A praça exalava um cheiro diferente em qualquer época do ano.
As figueiras deixavam cair folhas negras.
Os pássaros não pousavam por ali.
Miguel decidiu abrir o nicho.
Levou uma alavanca de ferro.
Encaixou a ponta da barra entre duas hastes enferrujadas e fez força. O metal rangeu baixo, resistindo como se não quisesse permitir o ato. Ele insistiu, apoiando todo o peso do corpo na alavanca, até ouvir o primeiro estalo.
As grades cederam…
Nada aconteceu.
Apenas o silêncio da noite.
O corpo permanecia imóvel.
Pequeno.
Leve.
Parecia despido, sem as grades diante de si.
Então ele percebeu.
Ela continuava de pé na sombra. Mas suas mãos não estavam mais como antes.
A boca seca moveu-se pela primeira vez em séculos:
— Não…
(A voz parecia areia deslizando sobre madeira.)
— …era para abrir.
O chão tremeu.
Após um horrível estalo de raízes, uma fissura abriu-se no centro da praça.
Lá de baixo veio um som parecido com milhares de vozes.
Depois o ar ficou pesado.
O cheiro metálico tomou tudo.
As árvores pareciam se curvar em direção à fissura.
E um tentáculo pulsante, gosmento, subiu através da rachadura.
Tateou ao redor com ânsia faminta.
Algo amarelo, brilhante, surgiu na escuridão abaixo dele…
Um olho.
Apenas um olho.
A retina vertical, como de um réptil.
O corpo da múmia desfez-se em pó e foi espalhado pela praça.
Miguel estava paralisado, vendo algo que nenhum ser normal deveria ver.
Na manhã seguinte, os moradores encontraram o caos no centro da praça.
O chão estava revirado, como se grandes escavadeiras tivessem estado ali.
O nicho estava destruído.
O corpo mumificado havia desaparecido.
E ninguém mais ouviu falar de Miguel.
Não era a cidade que a bruxa mantinha cativa. Era aquilo que dormia sob ela.
Era preciso um ateu…
E um sacrifício muito pior do que os séculos dentro de um nicho.
Chão das Figueiras estava livre de sua maldição.