
O CARRO PRETO
Ela tinha o dom de escolher sempre o caminho mais fácil.
Era bonita.
Sabia disso.
Chamava-se Elisa. Quando saía à ruas da pequena cidade, os olhares a acompanhavam como se atraídos por algum magnetismo. Nunca lhe faltavam convites, elogios ou pretendentes.
Alguns apenas admiravam de longe. Outros insistiam em conquistar sua atenção com presentes, flores ou promessas. Elisa acostumara-se a despertar paixões e, já aos 28 anos, aprendera a reconhecer quem se aproximava por interesse e quem realmente nutria algum sentimento.
Entre todos havia Erick.
Não era rico. Nem tinha um carro chamativo. Trabalhava numa oficina mecânica e, sempre que podia, caminhava até a casa dela para levá-la à praça ou à sorveteria.
Naquela sexta-feira, Erick apareceu usando sua melhor camisa.
— Vamos andando? A tarde está bonita.
Ela sorriu de forma educada, sem deixar de olhar para os sapatos dele, gastos e sujos de graxa.
Ele havia percebido aquele olhar e agora caminhava ao lado dela de cabeça baixa.
O silêncio entre os dois pesava, cheio de palavras que nenhum dos dois tinha coragem de dizer.
Foi quando um ronco de motor cortou a rua.
Um cupê preto, enorme, reluzente como um espelho, parou diante dos dois.
O vidro escuro desceu lentamente.
Atrás do volante estava um homem elegante, de sorriso impecável.
— Precisa de uma carona?
Elisa olhou para Erick.
Depois para o carro.
— Acho que vou com ele. A gente se fala!
Erick permaneceu parado na calçada.
Perguntou com voz baixa:
— Elisa... você conhece esse sujeito?
Ela respondeu com secura:
— Conheço o carro.
Entrou.
A porta fechou com um som pesado.
O veículo arrancou suavemente, deixando Erick sozinho na rua, sob o sol do fim da tarde.
Ficou olhando o veículo desaparecer na curva.
No carro, tudo parecia perfeito.
O banco era confortável.
O interior tinha cheiro de couro novo.
Ela passou os dedos discretamente pelo acabamento, admirando tudo ali dentro. Os sons lá fora não atravessavam aqueles vidros.
Uma música antiga tocava bem baixinho. Tudo isso e mais uma doce expectativa a fazia relaxar.
O motorista dirigia sem pressa.
— Belo carro — comentou Elisa.
— Obrigado.
— Nunca o vi por aqui.
Disse olhando o anel de rubi no dedo dele.
— Eu apareço quando alguém aceita meu convite.
Ela riu.
Achou que fosse uma brincadeira.
As casas começaram a ficar para trás.
Vieram estradas vazias e árvores…
— Estamos indo para onde?
— Para muito longe.
Ela pegou o celular.
Sem sinal.
Olhou pelo vidro.
Não reconhecia mais nada.
As árvores pareciam mais altas e mais escuras.
Já não havia postes, placas ou qualquer sinal de civilização.
— Acho melhor voltar.
O motorista não respondeu.
Continuou sorrindo.
Foi então que Elisa percebeu um detalhe.
O retrovisor refletia apenas o banco onde ela estava sentada.
O homem ao volante simplesmente não aparecia.
Seu reflexo existia.
O dele, não.
O coração acelerou.
Tentou abrir a porta.
A maçaneta não se moveu um milímetro sequer.
As travas nem sequer existiam.
Era como se fossem apenas detalhes decorativos.
— Pare o carro!
O homem sorriu ainda mais.
— Você entrou por vontade própria.
O carro acelerou.
A paisagem continuou mudando.
Os horizontes iam ficando estranhos…
Minutos depois o carro parou.
O motorista desligou o motor.
Finalmente virou o rosto.
A pele parecia cera.
E o sorriso...
Era largo demais para um rosto humano.
— Chegamos.
As portas se abriram sozinhas.
Elisa saiu correndo.
Atrás dela, houve passos calmos.
Nunca apressados.
Que sabem que a presa não tem para onde fugir.
De repente, perto de uma árvore morta e num cruzamento de chão batido, o homem estava à sua frente. Os olhos dele agora eram amarelos. A postura mudava…
— Você escolheu.
O grito de Elisa ecoou durante muito tempo.
Na manhã seguinte, Erick passou pela mesma rua.
Os olhos úmidos e tristes.
Ainda pensava nela.
Ainda lamentava o seu gesto.
Iria devolver o presente que havia comprado para lhe fazer uma surpresa.
A decepção doia, e cada passo parecia confirmar que não havia mais motivo para aquela lembrança.
A cidade seguia indiferente à sua volta, enquanto ele caminhava de cabeça baixa. Por um instante, pensou apenas em esquecer aquele dia.
Na esquina, viu o carro preto estacionado…
Reluzente.
Silencioso.
O vidro do motorista desceu lentamente.
Lá dentro, o homem elegante sorriu.
— Precisa de uma carona?
Por um momento, algo fez com que Erick olhasse para o banco de trás.
Não havia ninguém no banco.
Apenas no vidro…
Julgou ter visto sutilmente um rosto de mulher.
Bonita.
Pálida.
Chorava com desespero.
Era Elisa.
Erick levantou a mão devagar, fez um gesto discreto, de recusa, e se afastou um passo.
O motorista sorriu pela última vez.
O carro arrancou em silêncio.
Na traseira do veículo, Erick viu uma placa que parecia uma coisa artesanal.
Sem qualquer identificação.
Apenas um símbolo que ele nunca tinha visto.
O automóvel desapareceu na curva.
Elisa nunca mais foi vista.
Mas, de vez em quando, alguém comenta sobre um carrão preto que surge no final das tardes. Os pneus não deixam marcas.
FIM