No Jardim Da Poesia

de Paulo Maurício G. Silva

Textos

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A Janela

Meu nome é Samuel. Vou fazer 86 anos. Trago um bloco de papel com uma caneta diante de mim, e um diagnóstico de câncer num dos bolsos.

Jurei levar essa história comigo, como uma lembrança em que talvez eu mesmo não pudesse confiar. Mas na situação que estou, não preciso mais ter vergonha de confessar certas coisas, nem morrer sem exorcizar males que às vezes guardamos na alma. Coisas esquisitas que existem nos cantos da realidade. Às vezes penso que foram elas, e não apenas o câncer, que acabaram me trazendo para esta clínica.

Lembro que eu viajava sozinho, cortando o interior em busca de cidades pequenas onde pudesse fotografar construções antigas… Depois de me aposentar e de ganhar reconhecimento em uma exposição, transformar aquelas viagens em meu hobby era algo natural.

Num final de tarde, o GPS perdeu o sinal, e segui apenas pela intuição.

Foi então que avistei o escombro…

No meio de um campo vazio, erguia-se um gigantesco fragmento de construção. Parecia o pedaço de uma fortaleza, tomado por trepadeiras secas e manchas escuras. Alto o suficiente para se recortar contra o céu crepuscular.

Na parte superior existia uma única janela em forma de ogiva.

Sem vidro. Sem detalhes em madeira.

Aproximei-me.

Ao redor não havia fundações aparentes, nem montes de entulho que sugerissem o restante da construção. Era como se toda a edificação tivesse desaparecido, deixando apenas aquela parte dela.

Fotografei o lugar durante vários minutos.

De perto.

De longe.

Após a última foto, olhei de novo para a janela.

Um frio percorreu minhas costas…

Dei dois passos para trás e pisei em algo que se quebrou. Era um brinquedo antigo e sujo de lama.

Voltei ao carro e fui embora.

Na cidade vizinha, mostrei as fotografias ao proprietário da pousada. Assim que ele reconheceu a imagem, fechou a expressão, não como se estivesse irritado, mas de modo grave.

— Amanhã siga por outro caminho.

Esperei alguma explicação.

Não veio.

Na manhã seguinte, procurei alguns moradores mais velhos.

Pareciam conhecer o lugar como se se tratasse de um velho tabu, e nenhum falava muito.

Voltei ao local antes de deixar a região.

Queria observar aquilo de perto, mais um pouco.

O vento soprava forte, fazendo as ervas secas produzirem um ruído semelhante a sussurros.

Caminhei devagar até a base do paredão arruinado.

As pedras eram enormes como as de um monumento megalítico.

Algumas traziam marcas incompreensíveis.

Levantei os olhos e lá estava a janela.

Afastei-me imediatamente.

Enquanto caminhava para o carro, tive outra sensação vaga.

Como se houvesse vozes por trás do escombro.

A impressão se desfez quando o vento aumentou, fazendo a vegetação murmurar.

Naquela noite sonhei com o lugar e acordei coberto de suor.

No sonho, havia coisas indistintas no céu, e uma única estrela se posicionava bem no centro da janela.

Dias depois percebi detalhes nas fotografias…

Na primeira, era só uma janela vazia.

Na segunda, parecia haver uma sombra.

Na terceira, havia algo que lembrava uma silhueta humana.

Levei as imagens a um especialista.

Ele ampliou as fotos.

Ficou em silêncio.

Desfez a ampliação.

Disse que devia ser alguma nuvem ao fundo ou até um defeito digital. Que se eu pudesse tirar mais fotos e com outro aparelho, poderia ajudar numa análise mais precisa.

Mas percebi que ele não me olhava nos olhos.

Passei a sonhar todas as noites com a ruína.

Cada sonho era parecido com o anterior.

Certa manhã acordei com algo tomando forma em minha mente.

Algo sobre passagens para outro mundo.

Quando o sono se dissipou totalmente, o pensamento se perdeu.

Porém, não consegui mais dormir direito.

Tempos depois, resolvi voltar.

Precisava provar para mim mesmo que tudo não passara de imaginação.

Encontrei novamente a estrada.

O campo permanecia vazio.

As pedras estavam mais escuras.

A janela no mesmo lugar.

O fato de o enorme fragmento de construção ainda permanecer de pé já era, por si só, um mistério.

Mas havia algo diferente agora…

Na base do escombro encontrei flores recentes.

Muitas flores.

Velas apagadas.

Perguntei, numa fazenda próxima, quem as deixava ali.

O dono respondeu sem hesitar.

— Familiares.

— De quem?

Ele respirou fundo.

— Das crianças que desapareceram.

Não esperei mais nada.

Entrei no carro.

Fui embora.

Queimei as fotografias e até então não mencionei essa história para mais ninguém.

Durante muito tempo consegui evitar aquela estrada.

Mas certas lembranças conhecem nossos caminhos melhor do que nós.

Anos mais tarde, por obrigação, precisei cruzar a mesma região outra vez.

O campo estava silencioso.

O enorme fragmento ainda permanecia onde sempre estivera.

Ao passar pelo trecho, olhei para a janela no alto e vi algo que ainda hoje me atormenta.

Parecia a mão de uma menininha me acenando…

Paulo Maurício G Silva
Enviado por Paulo Maurício G Silva em 05/08/2026
Alterado em 06/08/2026


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