
História Cotidiana
Quando perguntavam seu nome, ele respondia apenas:
— Augusto.
Nunca dizia o sobrenome.
Aos setenta e três anos, morava sozinho em uma pequena casa de paredes descascadas no fim de uma rua sem saída. O silêncio era a sua companhia.
Todas as manhãs, às sete em ponto, Augusto preparava café para duas pessoas.
Colocava duas xícaras sobre a mesa.
Duas fatias de pão.
Duas cadeiras.
Sentava-se em uma delas.
A outra permanecia vazia até que ele terminasse de comer. Só então guardava tudo sem dizer uma palavra.
Quem o observasse poderia imaginar que esperava alguém atrasado.
Mas ninguém jamais aparecia.
Depois seguia até a praça do bairro.
Escolhia sempre o mesmo banco, debaixo de uma velha árvore, e passava horas olhando as pessoas.
Via crianças aprendendo a andar de bicicleta.
Casais discutindo por bobagens.
Idosos jogando dominó.
Mães empurrando carrinhos de bebê.
Ele conhecia os rostos de quase todos.
Sabia quem havia mudado de emprego.
Quem perdera um parente.
Quem andava apaixonado.
Observava mais do que deixava transparecer.
Mas ninguém sabia nada sobre ele.
Quando alguém tentava puxar conversa, Augusto respondia educadamente e encerrava o assunto antes que ganhasse intimidade.
Era mais fácil viver assim.
A solidão, depois de tantos anos, deixara de parecer uma prisão.
Transformara-se em costume.
Numa tarde de inverno, uma menina de aproximadamente oito anos sentou-se ao seu lado.
— O senhor vem aqui todos os dias.
Augusto sorriu de leve.
— Venho.
— Não enjoa?
Ele olhou para a praça.
— A praça nunca é a mesma.
Ela pareceu pensar na resposta.
— Meu avô dizia isso.
Foi embora correndo antes que ele pudesse responder.
No dia seguinte voltou.
Depois no outro.
E novamente.
Chamava-se Elisa.
Trazia sempre perguntas improváveis.
— O senhor acredita que as árvores sentem saudade?
— Qual foi o dia mais feliz da sua vida?
— Se pudesse voltar para qualquer idade, qual escolheria?
Augusto respondia pouco.
Mas respondia.
Sem perceber, começou a esperar aquelas conversas.
Certo dia, Elisa perguntou:
— O senhor mora sozinho?
Ele demorou.
— Moro.
— Deve ser triste.
— Às vezes.
Ela ficou em silêncio.
Depois disse apenas:
— Minha mãe diz que tristeza repartida pesa menos.
Augusto não respondeu.
Dias depois, Elisa foi à sua casa acompanhada da mãe.
A mulher carregava uma pequena caixa.
— Desculpe incomodar. Minha filha insiste que o senhor precisa de um bolo de laranja.
Augusto aceitou.
Ficaram alguns minutos conversando.
Ela contou que havia se mudado recentemente.
Era viúva.
Criava a filha sozinha.
Ao irem embora, Elisa acenou como se se despedisse de um velho amigo.
Naquela noite, Augusto cortou uma fatia do bolo.
Era o mesmo sabor que sua esposa fazia.
O primeiro pedaço ficou parado no prato enquanto as lembranças invadiam a cozinha.
Lembrou-se da casa cheia.
E do acidente que, num dia de chuva, levou sua esposa e sua filha..
E o tempo passou.
A amizade com Elisa tornou-se parte da rotina.
Ela lhe mostrava desenhos.
Contava histórias da escola.
Sem perceber, Augusto voltou a rir.
Pouco, mas ria.
Numa manhã de primavera, o banco da praça estava vazio.
Nem Elisa. Nem a mãe.
No dia seguinte também.
E no outro.
Augusto perguntou ao jardineiro.
Soube que elas haviam se mudado para outra cidade por causa de uma oportunidade de trabalho.
Não houve despedida.
Ao voltar para casa, ficou olhando as coisas por muito tempo.
Sentiu uma sensação de cansaço e uma leve tontura.
Sentou-se em silêncio.
Pela primeira vez desde que perdera a esposa e a filha, permitiu-se chorar.
Chorou pela família.
Por Elisa.
Na manhã seguinte, estranharam que Augusto não fora à praça.
Bateram à sua porta.
Ninguém respondeu.
Quando a abriram, encontraram-no sentado à mesa da cozinha.
A cabeça repousava serenamente sobre os braços, como se tivesse adormecido.
À sua frente havia duas xícaras de café já frias e um desenho infantil preso sob seus dedos.